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  • Novo Congresso 2027: o que muda para o trabalhador jovem

    Novo Congresso 2027: o que muda para o trabalhador jovem

    O segundo turno vai decidir quem senta na cadeira de presidente. Mas uma parte enorme do poder já foi decidida no dia 4 de outubro. O novo Congresso de 2027 saiu das urnas mais à direita do que o atual, e é ele que vai votar as leis sobre o seu trabalho, o seu salário e a sua aposentadoria pelos próximos quatro anos.

    O PL, partido de Jair e Flávio Bolsonaro, elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara. No Senado, o partido chega a 28 cadeiras. São números que mudam o jogo.

    Ao mesmo tempo, os partidos tradicionais de centro perderam espaço. O “centrão” continua decisivo, mas o centro de gravidade se deslocou.

    Neste texto mostramos como ficou a composição, o que um Congresso assim consegue fazer (ou travar) e o que isso significa para a juventude trabalhadora.

    Como ficou a Câmara dos Deputados

    Segundo a apuração publicada pela CNN Brasil, estas são as maiores bancadas eleitas para 2027:

    • PL: 121 deputados (eram 99 eleitos em 2022)
    • Federação PT-PCdoB-PV: 88
    • União-PP: 87
    • PSD: 43
    • Republicanos: 41
    • MDB: 36
    • Podemos: 27
    • PSB: 15
    • Federação PSOL-Rede: 15
    • PSDB-Cidadania: 11
    • Novo: 10

    A Câmara tem 513 cadeiras. Os números ainda podem ter ajustes finos até a diplomação pelo TSE.

    O que dá para fazer com esses números

    Uma PEC precisa de 171 assinaturas só para começar a tramitar. Somados, PL, Novo e Republicanos passam desse mínimo, como observou o O Povo. Ou seja: a direita sozinha consegue propor mudanças na Constituição, sem precisar de mais ninguém.

    Como ficou o Senado

    No Senado, a mudança é ainda mais forte. Das 54 vagas em disputa, 33 foram para nomes alinhados à direita ou à extrema direita, segundo levantamento do Extra Classe. A partir de 2027, esse campo deve somar pelo menos 50 dos 81 senadores.

    Só o PL terá 28 senadores. Com isso, o partido sozinho consegue abrir uma CPI, que exige 27 assinaturas.

    Por que o Senado pesa tanto

    É no Senado que muita pauta trabalhista morre. A PEC do fim da escala 6×1, por exemplo, ficou meses parada lá depois de aprovada na Câmara. O Senado também aprova indicações ao Supremo Tribunal Federal e pode abrir processos de impeachment.

    O que um Congresso assim significa para quem trabalha

    Um Congresso mais à direita não quer dizer que todo direito cai no dia seguinte. Mas muda a correlação de forças, ou seja, o tamanho de cada lado na disputa.

    Algumas consequências prováveis, a partir do que os próprios eleitos defendem:

    • Pautas como o fim da escala 6×1 ficariam mais difíceis a partir de 2027. Por isso a pressa: a PEC foi aprovada em 14 de outubro, ainda com o Congresso atual. A regulamentação, porém, vai ficar com o novo.
    • Propostas de flexibilização, como jornada “flexível”, contratos com menos encargos para jovens e negociação individual, ganham terreno. Esses pontos aparecem no programa de Flávio Bolsonaro.
    • Orçamento de saúde e educação fica mais exposto a cortes. Já mostramos como o SUS sofre com o subfinanciamento mesmo em cenários mais favoráveis.

    Por que a juventude é a mais afetada

    Quem tem 18, 20, 25 anos é quem vai viver por mais tempo sob as regras que esse Congresso aprovar. E é a faixa que mais trabalha em empregos precários: comércio, aplicativo, telemarketing, escala 6×1.

    Contrato “mais barato” para jovem quase sempre quer dizer menos direito para jovem. Foi o que se tentou com a Carteira Verde e Amarela, que reduzia FGTS e multa rescisória para quem estava no primeiro emprego.

    Eleição não é o único terreno de luta

    O resultado no Congresso é ruim para a classe trabalhadora, e não adianta fingir que não é. Mas a história mostra que conquista não vem só de voto: vem de organização. O Congresso que aprovou a reforma trabalhista em 2017 também foi o que, sob pressão das ruas, agora discute reduzir a jornada.

    É por isso que defendemos que a juventude precisa se organizar politicamente, em sindicato, movimento estudantil, coletivo de bairro. Um Congresso hostil se enfrenta com gente organizada do lado de fora.

    Conclusão: o novo Congresso 2027 exige mais organização

    O novo Congresso 2027 é mais conservador, com o PL maior nas duas Casas. Isso torna mais difícil avançar em direitos e mais fácil retirá-los. A resposta não é desânimo: é acompanhar votação por votação, cobrar quem foi eleito e construir força fora do parlamento.

    Compartilhe com quem acha que a eleição acabou no dia 4. Ela está só começando.

  • Introdução ao Materialismo Histórico

    Introdução ao Materialismo Histórico

    O materialismo histórico é a base da análise marxista da sociedade. Diferentemente das interpretações idealistas que veem a história como resultado de ideias, o materialismo histórico argumenta que a história é determinada pelas condições econômicas e pelas relações de produção.

    Marx e Engels desenvolveram este método para compreender como as sociedades se transformam ao longo do tempo. A luta de classes, impulsionada pelas contradições entre as forças produtivas e as relações de produção, é o motor da mudança histórica.

    Este é um conceito fundamental para entender o desenvolvimento do capitalismo e a possibilidade de uma transição para o socialismo. Mas o que o materialismo histórico afirma exatamente? Por que ele continua relevante quase dois séculos depois de Marx? E como ele se aplica ao Brasil de 2026?

    O que é o materialismo histórico

    O materialismo histórico é o método marxista de análise da sociedade. Ele parte de uma premissa simples: antes de fazer política, arte ou filosofia, os seres humanos precisam comer, vestir-se e ter onde morar. Como produzimos os meios materiais de nossa existência condiciona tudo o mais.

    Em outras palavras: para entender uma sociedade, comece pela economia. Não pela “alma do povo”, não pelos “valores nacionais”, não pelas “grandes ideias” de seu tempo — mas pelas relações concretas que homens e mulheres estabelecem para produzir o que consomem.

    Marx contrastou este método com o idealismo — a corrente filosófica dominante em sua época, que via a história como o desdobramento de ideias, espíritos ou de uma razão universal. Para os idealistas, eram as ideias que moviam o mundo. Para Marx e Engels, eram as condições materiais.

    As condições materiais determinam a consciência

    A formulação clássica está no Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política (1859): “Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que determina a sua consciência.”

    Isso significa que as ideias dominantes em uma sociedade são, em larga medida, as ideias da classe dominante. Em uma sociedade onde a propriedade privada dos meios de produção é a regra, é “natural” pensar que a propriedade privada é eterna e legítima. Em uma sociedade que vive da exploração do trabalho assalariado, “tempo é dinheiro” parece óbvio.

    Isso não quer dizer que as pessoas sejam autômatos econômicos. As ideias têm peso real, podem antecipar mudanças e podem retardá-las. Mas elas não brotam do nada: surgem dentro de condições materiais específicas.

    Modos de produção e transição histórica

    Marx propôs que a história das sociedades humanas pode ser compreendida como uma sucessão de modos de produção, cada um definido pela combinação entre forças produtivas (tecnologia, conhecimento, força de trabalho) e relações de produção (quem é dono do quê, quem trabalha para quem).

    Os modos de produção que Marx identificou ao longo da história ocidental incluem o comunismo primitivo (sociedades de caçadores-coletores, sem propriedade privada significativa), o escravismo (a Antiguidade greco-romana, com produção dependente de escravos), o feudalismo (a Europa medieval, com servos cultivando terras de senhores feudais) e o capitalismo (dominante desde os séculos XVI-XIX, em que a maioria vende sua força de trabalho por salário).

    Cada modo de produção foi sucedido por outro quando suas contradições internas se tornaram insustentáveis. O capitalismo, segundo Marx, também não é eterno — e suas próprias contradições preparam o terreno para o socialismo.

    A luta de classes é o motor da história

    A frase de abertura do Manifesto Comunista (1848) é talvez a mais famosa síntese do materialismo histórico: “A história de todas as sociedades até hoje é a história das lutas de classes.”

    Em cada modo de produção há uma classe dominante (que possui os meios de produção) e uma classe dominada (que produz a riqueza). Senhor e escravo. Senhor feudal e servo. Burguês e proletário. A luta entre essas classes não é acidental — é estrutural.

    Quando essa luta se torna aguda o suficiente, e quando as forças produtivas amadurecem além do que as antigas relações de produção permitem, abre-se espaço para uma revolução social: as relações de produção mudam, e com elas toda a superestrutura jurídica, política e ideológica.

    Materialismo histórico aplicado ao Brasil

    O Brasil é um caso ilustrativo. Por mais de três séculos, a economia brasileira esteve baseada no escravismo colonial: produção de cana, ouro e café para exportação, com mão de obra escravizada. O abolicionismo do século XIX não foi um simples “avanço moral” — foi atravessado por mudanças nas condições materiais, como a pressão britânica pelo fim do tráfico, a crise da cafeicultura escravista e a chegada de imigrantes europeus.

    Mesmo após a Abolição (1888) e a Proclamação da República (1889), a estrutura agrária permaneceu concentrada — e isso explica boa parte das desigualdades brasileiras de hoje. Segundo o IBGE, o Brasil segue entre os países mais desiguais do mundo, com a metade mais pobre detendo menos de 10% da renda nacional.

    Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes, dois dos maiores intérpretes marxistas do Brasil, mostraram como nossa formação dependente, escravista e tardiamente industrial moldou um capitalismo de características muito particulares — e dificultou a consolidação de direitos sociais que outros países conquistaram.

    Por que estudar materialismo histórico hoje

    Em 2026, com a economia mundial em crescimento baixo, a desigualdade explodindo e a crise climática ameaçando a vida no planeta, o materialismo histórico oferece algo que poucas teorias oferecem: um método para entender por que estamos onde estamos, e um caminho para imaginar como sair daqui.

    Não se trata de aceitar Marx como dogma. Trata-se de usar o método: começar pela economia, identificar as classes em conflito, mapear as contradições internas do sistema, e perguntar quais transformações são possíveis a partir delas.

    O materialismo histórico não é uma profecia — é uma ferramenta. E em tempos de crises capitalistas recorrentes, é uma das ferramentas mais necessárias.

    Referências e leituras complementares

    Karl Marx & Friedrich Engels, A Ideologia Alemã (1845).
    Karl Marx, Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política (1859).
    Karl Marx & Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848).
    Caio Prado Júnior, Formação do Brasil Contemporâneo (1942).
    Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa no Brasil (1975).

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