Categoria: Luta de Classes

A luta de classes não é metáfora: é o conflito real e permanente entre quem vive do próprio trabalho e quem vive da exploração desse trabalho. Nesta editoria tratamos o conflito capital-trabalho não como tema acadêmico, mas como chave para entender notícias, leis, eleições e o cotidiano brasileiro — da fábrica ao app, da fila do SUS ao corredor do Congresso.
Nossa abordagem parte do princípio de que toda história é história da luta de classes — e a brasileira não é exceção. Cobrimos a história do movimento operário, das Ligas Camponesas, do sindicalismo combativo, das greves marcantes e dos episódios em que a classe trabalhadora deixou marca na política nacional.
Falamos com quem está na linha de frente e contextualizamos a partir de Marx, Florestan Fernandes, Astrojildo Pereira, Caio Prado Jr. e a tradição da esquerda brasileira.

  • A Luta de Classes na História

    A Luta de Classes na História

    “A história de todas as sociedades até hoje é a história das lutas de classes.” Assim começa o Manifesto Comunista de 1848, escrito por Marx e Engels. A frase é provocadora — e é literal.

    A luta de classes é o motor da história segundo o marxismo. Desde o surgimento das sociedades de classes, a história é marcada pelo conflito entre exploradores e explorados — entre quem possui os meios de produção e quem precisa vender sua força de trabalho para sobreviver.

    Mas o que é exatamente uma classe social? Por que essa luta é estrutural e não acidental? E como ela aparece no Brasil de 2026?

    O que é uma classe social

    Para o marxismo, uma classe social não é definida por renda, profissão ou estilo de vida. É definida pela relação que cada grupo tem com os meios de produção: fábricas, terras, máquinas, redes de distribuição, capital financeiro.

    Quem é dono dos meios de produção não precisa trabalhar para outros — ao contrário, faz outros trabalharem para si. Quem não é dono precisa vender sua capacidade de trabalho em troca de salário. Essa é a divisão fundamental.

    Dentro dessa divisão geral existem subclasses, frações, e situações intermediárias (pequena burguesia, autônomos, camponeses, etc.), mas o núcleo permanece: há quem viva do próprio trabalho e há quem viva do trabalho dos outros.

    Como a luta de classes move a história

    O conflito entre classes não é uma escolha — é estrutural. O lucro dos donos dos meios de produção depende de pagar pouco aos trabalhadores. Os trabalhadores, por sua vez, precisam de salário para viver. Há um interesse oposto e direto.

    Esse antagonismo aparece em todas as escalas: na negociação salarial individual, na greve setorial, no embate sindical, na disputa eleitoral, na revolução. A luta de classes nunca para — ela apenas muda de forma.

    Quando os modos de produção entram em crise (porque suas forças produtivas amadureceram além das relações de produção dominantes), o materialismo histórico nos ensina que se abrem janelas revolucionárias. É nesses momentos que a luta de classes se torna explicitamente política — e a história muda de fase.

    Burguesia e proletariado: a oposição central do capitalismo

    No capitalismo, a luta de classes assume uma forma específica: burguesia versus proletariado. A burguesia detém os meios de produção. O proletariado, sua imensa maioria, vende sua força de trabalho para sobreviver.

    O lucro burguês — o que Marx chamou de mais-valia — vem da diferença entre o que o trabalhador produz em valor e o que recebe como salário. A economia política marxista mostra como essa extração ocorre dentro de aparências contratuais legítimas (o “trabalho livre” do salário).

    Mas exploração existe mesmo onde o contrato é “voluntário”. É o pano de fundo de toda jornada de trabalho no capitalismo.

    As novas formas de luta de classes no século XXI

    A luta de classes em 2026 não é uniforme nem se concentra na fábrica fordista do século XX. Ela aparece em frentes novas:

    Trabalhadores de aplicativo que organizam paralisações pelo país. Entregadores, motoristas e diaristas digitais lidam com uma “uberização” que combina técnicas modernas de gestão a relações de trabalho pré-modernas.

    Funcionalismo público em greves contra cortes orçamentários e privatizações.

    Movimentos sociais como o MST (sem-terra), MTST (sem-teto) e o movimento sindical clássico, que continuam sendo as principais forças organizadas da classe trabalhadora.

    Novos sujeitos que articulam classe com gênero, raça e território, sem reduzir um ao outro.

    Luta de classes no Brasil: do escravismo à reforma trabalhista

    A luta de classes no Brasil é cíclica e profunda. O escravismo colonial deixou marcas estruturais que ainda hoje organizam quem tem e quem não tem direitos. A República Velha (1889-1930) foi marcada por revoltas operárias precoces — a Greve Geral de 1917 em São Paulo é um marco esquecido pela história oficial.

    O século XX viu a consolidação de direitos trabalhistas com a CLT (1943), a expansão sindical no governo Vargas, a luta operária do ABC nos anos 1970-80, a redemocratização e a Constituição de 1988. Cada conquista veio de luta — nada foi presente.

    Em 2017, a reforma trabalhista de Temer desmontou parte importante dessa proteção. Em 2019, a reforma da Previdência aprofundou o ataque. Em 2026, segundo dados do IBGE, o emprego formal segue abaixo do patamar pré-pandemia, e a informalidade atinge mais de 40% da população ocupada.

    Não é coincidência. É luta de classes em curso — perdida em alguns rounds, mas longe de ter terminado.

    Por que entender a luta de classes hoje

    Falar em luta de classes não é discurso datado. É a chave para entender por que tanto se discute em televisão sobre “reforma” enquanto se cala sobre desigualdade. Por que precarização e flexibilização aparecem como “modernização”. Por que o salário mínimo segue baixo enquanto lucros recordes são celebrados.

    A luta de classes está em curso o tempo todo. A questão não é se ela existe — é de que lado você está. E saber identificá-la é o primeiro passo para se organizar. O imperialismo e as crises econômicas são pano de fundo dessa luta — não substituem a luta dentro de cada país.

    Referências e leituras complementares

    Karl Marx & Friedrich Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848).
    Karl Marx, O 18 Brumário de Luís Bonaparte (1852).
    E. P. Thompson, A Formação da Classe Operária Inglesa (1963).
    Marilena Chauí, Brasil — Mito Fundador e Sociedade Autoritária (2000).
    Ricardo Antunes, O Privilégio da Servidão (2018).