Introdução
No Brasil de 2026, as mulheres ganham em média 78% do que os homens ganham pelo mesmo trabalho. São maioria nos empregos domésticos, nos serviços de cuidado, nos postos de trabalho mais precários e mal remunerados. E além do trabalho assalariado, realizam a maior parte do trabalho doméstico e de cuidado — cozinhar, limpar, cuidar de crianças, de idosos — trabalho que não entra no PIB, não recebe salário e raramente é reconhecido.
Essa dupla exploração — no mercado de trabalho e no âmbito doméstico — não é natural. É resultado de um sistema que combina capitalismo e patriarcado para extrair o máximo de valor do trabalho feminino pagando o mínimo possível.
Neste artigo, vamos explorar a perspectiva do feminismo socialista: como gênero e classe se entrelaçam, por que a luta das mulheres é indissociável da luta de classes e por que não há emancipação feminina real sem transformação estrutural da sociedade.
O Trabalho Invisível das Mulheres
A economia capitalista se sustenta, em parte, sobre um trabalho que não paga: o trabalho doméstico e de cuidado realizado majoritariamente por mulheres. Cozinhar, limpar, criar filhos, cuidar de pais idosos — tudo isso é trabalho real que reproduz a força de trabalho e permite que o sistema funcione. Mas como não gera valor de mercado, é tratado como “não trabalho”.
A economista Silvia Federici, em “Calibã e a Bruxa”, mostra como a subordinação das mulheres ao trabalho doméstico não remunerado foi um processo histórico deliberado do capitalismo, que precisava garantir a reprodução da força de trabalho a custo zero para o capital.
Quando as mulheres entram em massa no mercado de trabalho — o que ocorreu especialmente a partir da segunda metade do século XX — elas não abandonam o trabalho doméstico. Passam a ter dois trabalhos. E o salário que recebem é sistematicamente menor, justificado pela ideia de que o homem é o “provedor principal”.
Violência de Gênero como Instrumento de Controle
No Brasil, uma mulher é assassinada a cada 6 horas. O feminicídio — assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres — é a expressão mais extrema de um sistema de controle que inclui assédio, violência doméstica, ameaças e intimidação.
A violência de gênero não é patologia individual de homens “desequilibrados”. É um mecanismo estrutural de manutenção do poder masculino e de contenção da autonomia feminina. Onde as mulheres ousam ocupar espaços públicos, econômicos e políticos, a violência surge como punição e ameaça.
Não por acaso, os países com maior igualdade de gênero são também aqueles com melhores indicadores sociais, menor corrupção e maior bem-estar coletivo. A emancipação das mulheres beneficia toda a sociedade.
Feminismo Liberal x Feminismo Socialista
Existe uma tensão importante dentro do feminismo entre diferentes perspectivas políticas. O feminismo liberal foca na igualdade de oportunidades dentro do sistema existente: mais mulheres nas diretorias de empresas, mais representação política feminina, fim da diferença salarial entre homens e mulheres de mesma classe.
Esses objetivos são legítimos, mas insuficientes. Uma CEO mulher que explora trabalhadoras não representa emancipação feminina — representa a cooptação de algumas mulheres à lógica de exploração capitalista.
O feminismo socialista parte de outra premissa: a opressão das mulheres tem raízes materiais no capitalismo e no patriarcado. Não basta incluir mulheres no sistema existente — é preciso transformar o sistema. Isso significa questionar a divisão sexual do trabalho, a propriedade privada, a família como unidade econômica e as estruturas de poder que sustentam tanto a exploração de classe quanto a opressão de gênero.
A Luta das Mulheres na História do Brasil
As mulheres brasileiras têm uma história rica de resistência. Lélia Gonzalez, Laudelina de Campos Melo, Bertha Lutz — cada geração produziu lideranças que articularam gênero, raça e classe. O movimento feminista dos anos 1970 e 1980 foi fundamental na conquista de direitos na Constituição de 1988. As marchas das mulheres, os movimentos contra o feminicídio, a luta das trabalhadoras domésticas por direitos — tudo isso compõe uma tradição de resistência que precisa ser conhecida e continuada.
Conclusão
A luta das mulheres não é uma pauta secundária, a ser incorporada “quando a revolução vier”. É parte constitutiva de qualquer projeto de transformação social. Metade da humanidade não pode ser relegada a segundo plano.
Não há socialismo sem feminismo. Não há feminismo real sem a transformação das estruturas econômicas que sustentam a opressão de gênero. As duas lutas são a mesma luta. ✊
Referências
1. FEDERICI, Silvia. “Calibã e a Bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva”. Elefante, 2017.
2. GONZALEZ, Lélia. “Por um feminismo afro-latino-americano”. Zahar, 2020.
3. IBGE. Estatísticas de Gênero: Indicadores sociais das mulheres no Brasil. 2023.
4. FBSP. “Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024”.
5. DAVIS, Angela. “Mulheres, Raça e Classe”. Boitempo, 2016.

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