Em 1926, Mussolini mandou prender o líder do Partido Comunista da Itália. No julgamento, segundo relato consagrado pela tradição comunista italiana, o promotor disse algo próximo a: “Devemos impedir este cérebro de funcionar por vinte anos.” Não conseguiu. O homem ficou onze anos no cárcere fascista, escreveu cerca de 3 mil páginas em cadernos escolares contrabandeados pelos guardas, morreu antes dos 50 anos — e produziu o pensamento marxista mais original do século XX depois de Lenin. Seu nome era Antonio Gramsci.
Para a juventude que estuda política a sério, conhecer Gramsci não é luxo erudito — é necessidade. Os conceitos que ele forjou no cárcere (hegemonia, intelectual orgânico, sociedade civil, guerra de posição) são instrumentos que, melhor do que muito jargão acadêmico, ajudam a entender o Brasil de hoje: por que perdemos batalhas culturais, por que a direita avançou nas redes, por que a luta política não se reduz a eleição.
Este texto apresenta a vida de Gramsci e três conceitos centrais para o marxismo contemporâneo: Antonio Gramsci hegemonia, intelectual orgânico, e a distinção entre sociedade civil e sociedade política. E mostra por que tudo isso é leitura urgente para a esquerda brasileira em 2026.
Vida: da Sardenha ao cárcere fascista
Antonio Gramsci nasceu em 1891 em Ales, na Sardenha — uma das regiões mais pobres da Itália. Sua família era de pequena classe média, mas mergulhou na miséria quando o pai foi preso por irregularidades administrativas, sob acusações políticas. Gramsci cresceu marcado pela pobreza, por uma deficiência física que limitava seu corpo desde a infância e por uma sensibilidade aguda à “questão meridional” — a desigualdade brutal entre o sul agrário e o norte industrial italiano.
Ganhou bolsa para estudar em Turim, então capital industrial do país, onde se inseriu no movimento socialista, escreveu para jornais operários, militou na fábrica e na universidade. Em 1919–1920, junto com Palmiro Togliatti e outros, foi figura central do “biênio vermelho” italiano: greves, ocupações de fábricas em Turim, conselhos operários — uma experiência que o marcaria para sempre, e a partir da qual desenvolveu ideia de que a classe trabalhadora precisa criar suas próprias formas de poder e de cultura desde já, dentro do capitalismo.
Em 1921, no congresso de Livorno, participou da fundação do Partido Comunista da Itália, em ruptura com o Partido Socialista. Foi à União Soviética como representante do partido, casou-se com Júlia Schucht, voltou à Itália, foi eleito deputado em 1924 — meses antes de Mussolini consolidar o regime fascista. Em novembro de 1926, apesar da imunidade parlamentar, foi preso. O julgamento ocorreu em 1928. Foi condenado a vinte anos de prisão.
Passou quase onze anos no cárcere, em condições de saúde cada vez mais frágeis. Foi nessa situação extrema, longe de bibliotecas, com lápis e cadernos escolares, sob censura, que escreveu os Cadernos do Cárcere: 33 cadernos manuscritos, redigidos entre 1929 e 1935, totalizando mais ou menos 3 mil páginas. Morreu em 1937, em Roma, dias depois de finalmente conseguir liberdade condicional, de hemorragia cerebral.
Hegemonia: o conceito-chave
Hegemonia é a categoria mais conhecida e mais original de Gramsci. Ela não nasceu com ele — vem do movimento operário russo do início do século XX e é mencionada por Lenin —, mas foi Gramsci quem a desenvolveu ao ponto de torná-la chave de leitura do poder no capitalismo desenvolvido.
A pergunta que move Gramsci é: por que, mesmo em países de capitalismo avançado e classe operária numerosa, as revoluções socialistas não chegavam? Por que a Itália, que havia chegado tão perto em 1919–1920, recuou para o fascismo em vez de avançar para o socialismo? A resposta clássica — força repressiva do Estado — não bastava. Gramsci propôs: porque o poder das classes dominantes não se sustenta apenas em força. Sustenta-se também em consenso.
Hegemonia é exatamente isso: a capacidade de uma classe dominante de organizar, dirigir e tornar aceitável seu domínio para o conjunto da sociedade — inclusive para classes subalternas. Não através de tanques, mas através de escola, mídia, igreja, família, costumes, língua, “senso comum”. Hegemonia é coerção forrada de cultura. É domínio que se faz parecer natural.
Para a esquerda, essa intuição tem consequências enormes. Se o poder se reproduz na cultura, no cotidiano, na escola, na linguagem — então conquistar o poder político de cima sem ter conquistado hegemonia cultural por baixo é construção em areia. Foi por isso que Gramsci falou em “guerra de posição”: a luta socialista nas sociedades modernas exige paciência estratégica, ocupação de instituições, batalha de longo prazo pelos significados, em paralelo (e não em substituição) à organização política e econômica das classes trabalhadoras.
Intelectual orgânico: ninguém é neutro
Outro conceito central é o de intelectual orgânico. Gramsci recusa a ideia de “intelectual neutro” ou “isento”. Para ele, todo intelectual — professor, jornalista, padre, médico, advogado, técnico — articula, mesmo sem perceber, interesses de classe e visões de mundo de determinados grupos sociais.
Existem dois tipos básicos. Os intelectuais tradicionais aparecem como “intelectuais em si” — herdeiros de uma instituição (Igreja, universidade, ordens profissionais) que parece ter autonomia em relação à sociedade, mas que na verdade serve historicamente a classes dominantes específicas. Os intelectuais orgânicos são os que cada classe forma a partir de si mesma, para organizar sua visão de mundo, sua técnica produtiva, sua identidade política. A burguesia tem seus economistas, seus juristas, sua imprensa de negócios. A classe trabalhadora precisa formar os seus.
“Todos os homens são intelectuais”, escreveu Gramsci, no sentido de que toda pessoa pensa e atribui significados ao mundo. Nem todos exercem essa função intelectual de forma profissional ou organizada. A pergunta política que se segue é: a classe trabalhadora consegue formar seus próprios intelectuais orgânicos — sindicalistas, professores, jornalistas, comunicadores, juristas — capazes de disputar a interpretação da realidade?
É uma das pontes mais diretas entre Gramsci e o trabalho de comunicação que estamos fazendo aqui no Jovem Comunista: a ideia de que produzir um veículo de mídia marxista não é firula — é tarefa estratégica, formação de intelectuais orgânicos da juventude trabalhadora.
Sociedade civil vs sociedade política
Gramsci distingue duas dimensões do que se chama de “Estado em sentido amplo”. A sociedade política é o aparato repressivo: governo, polícia, tribunais, exército, leis. A sociedade civil é o conjunto de instituições “privadas” — escolas, universidades, igrejas, partidos, sindicatos, imprensa, associações — onde se forma o consenso e a hegemonia.
Essa distinção parece simples, mas reorienta a estratégia política. Em sociedades de capitalismo desenvolvido, a sociedade civil é densa, complexa, ramificada — e é nela que se trava a parte mais importante da luta de classes em períodos de não-revolução. Em sociedades onde a sociedade civil é mais frágil (Gramsci pensa na Rússia em 1917), a tomada do poder político pode ser mais decisiva. Em sociedades como a Itália — ou o Brasil contemporâneo —, “guerra de posição” na sociedade civil é tarefa permanente.
Esse é também o instrumento com que Gramsci pensa a tomada da hegemonia: a classe que sobe ao poder não toma só o aparelho de Estado, ela ocupa instituições da sociedade civil, forma seus intelectuais, organiza alianças, constrói consenso, redefine o que é “senso comum”. O fascismo, nesse esquema, é uma resposta brutal à hegemonia operária que vinha avançando — e a derrota da esquerda foi, antes de tudo, derrota cultural e organizacional na sociedade civil.
Por que Gramsci hoje, no Brasil
Pouca gente é tão atual no Brasil contemporâneo. Algumas razões.
Primeiro, hegemonia explica o sucesso da extrema-direita brasileira na década de 2010-2020. O bolsonarismo não venceu apenas pela “fake news” ou pelo dinheiro do agronegócio: venceu porque construiu, ao longo de anos, uma articulação entre igrejas neopentecostais, redes sociais, mídia tradicional, polícias militares, militares, pequenos comerciantes, e uma narrativa moral que se tornou senso comum em vasto pedaço da sociedade. A esquerda perdeu a batalha cultural antes de perder a eleição.
Segundo, intelectual orgânico explica o vácuo. Quando a esquerda institucional se acomodou, perdeu a tarefa de formar quadros — sindicalistas com formação política sólida, professores que pensem o currículo escolar como disputa, jornalistas com vínculos orgânicos com a classe trabalhadora, advogados populares, comunicadores. Esse vácuo foi ocupado pelos “intelectuais” da extrema-direita digital. Reconstruir essa camada é tarefa estratégica.
Terceiro, sociedade civil vs sociedade política nos lembra que o jogo eleitoral, embora central, não é tudo. Eleger governos sem ter hegemonia na sociedade civil produz mandatos cercados, sabotados, derrotados — como vimos repetidamente. A construção de hegemonia popular é trabalho de décadas, em escolas, sindicatos, igrejas progressistas, mídias alternativas, movimentos sociais como organizações da classe trabalhadora e formações como a juventude comunista.
Quarto, Gramsci nos protege contra a tentação do messianismo e do espontaneísmo. Hegemonia se constrói, não se decreta. Não há atalho. E também nos protege contra o ceticismo derrotista: a hegemonia da burguesia não é eterna, e nenhuma hegemonia popular se constrói sem trabalho de formiga, dia após dia.
Onde ler Gramsci
O texto fundamental de Gramsci são os Cadernos do Cárcere. Em português, há a edição da Civilização Brasileira em seis volumes, organizada por Carlos Nelson Coutinho, que dispõe os textos em temas (Estado, intelectuais, partido, cultura). É a referência. Para uma entrada mais leve, vale a coletânea Cartas do Cárcere, que mostra Gramsci pessoa, irmão, marido, sobrinho, leitor.
Para começar, dois caminhos. Um livro introdutório (Carlos Nelson Coutinho, Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político, ou Edmundo Fernandes Dias, Gramsci em Turim) ajuda a montar o panorama antes de ir aos Cadernos. Depois, ler trechos selecionados dos Cadernos diretamente — sobre intelectuais, hegemonia, partido, americanismo —, em grupo de estudo se possível.
Outras leituras essenciais: o glossário marxista do Jovem Comunista para os termos técnicos, e o texto sobre dialética marxista, fundamento metodológico que Gramsci também opera. Quem quer aprofundar a tradição contemporânea vale o nosso guia de cinco livros para começar a estudar marxismo.
Conclusão: o cérebro que continuou funcionando
Gramsci é uma dessas figuras raras que combinam três coisas: rigor teórico no mais alto nível, militância pertinaz e uma vida pessoal de coragem moral. Pagou caro por todas as três. Mas o cérebro que Mussolini quis impedir de funcionar por vinte anos continua funcionando — sobretudo onde mais importa, que é em quem o lê para pensar a própria luta.
Para a juventude brasileira em 2026, Gramsci é leitura urgente. Estudar hegemonia, intelectual orgânico e sociedade civil é entender por que estamos onde estamos — e como se constrói a saída. Comece pelas cartas. Avance aos cadernos. Forme grupo de estudo. E aplique aquilo que aprender, todo dia, na escola, no trabalho, no bairro, nas redes.
Referências
- Gramsci, A. Cadernos do Cárcere. Civilização Brasileira (6 vols., org. Carlos Nelson Coutinho).
- Gramsci, A. Cartas do Cárcere. Civilização Brasileira.
- Coutinho, C. N. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Civilização Brasileira.
- Marxists Internet Archive — Gramsci em português: marxists.org/portugues/gramsci






