Tag: classe trabalhadora

Classe trabalhadora é o conjunto dos que vivem da venda da própria força de trabalho — operários da indústria, trabalhadores de serviços, entregadores de aplicativo, professores, enfermeiros, rurais sem-terra. Não é categoria sociológica vaga: é definida pela posição nas relações de produção. Os textos com esta tag tratam de sua composição no Brasil, dos seus instrumentos históricos de organização (sindicatos, partidos, movimentos) e dos desafios atuais — uberização, fragmentação, desindustrialização. Aqui a classe trabalhadora não é objeto de pena, é sujeito da história e protagonista das transformações que importam.

  • Como votar no 2º turno em 25 de outubro: guia prático

    Como votar no 2º turno em 25 de outubro: guia prático

    No domingo, 25 de outubro, o Brasil volta às urnas para o segundo turno. Para presidente, a disputa é entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Em alguns estados também há segundo turno para governador.

    No primeiro turno, 33,4 milhões de pessoas não votaram, mais do que a diferença entre os dois candidatos, como mostramos neste texto sobre a abstenção. Por isso reunimos aqui, sem enrolação, como votar no 2º turno: horário, documento, transporte e o que fazer se você faltou no dia 4.

    Salve este texto e mande no grupo da família.

    Horário de votação

    A votação vai das 8h às 17h, horário de Brasília. Quem mora em estados com outro fuso precisa fazer a conta: no Amazonas, por exemplo, a votação começa às 7h locais.

    Quem estiver na fila às 17h ainda vota. Mas não deixe para a última hora.

    Que documento levar

    Leve um documento oficial com foto, segundo o guia do O Tempo:

    • carteira de identidade (RG ou a nova carteira de identidade);
    • carteira de motorista;
    • carteira de trabalho;
    • passaporte;
    • e-Título com foto.

    O título de papel não é obrigatório. O que vale é o documento com foto.

    Atenção com o e-Título

    Se for usar o aplicativo e-Título, ele precisa estar aberto no celular. Print ou foto da tela não valem. E o celular não pode entrar na cabine: você deixa com o mesário na hora de votar.

    Onde eu voto?

    O local é o mesmo do primeiro turno. Se não lembra, consulte no aplicativo e-Título ou no site do TSE, na opção de consulta do local de votação, com nome, data de nascimento e nome da mãe ou número do título.

    Transporte gratuito

    O transporte público urbano deve ser gratuito no dia da eleição, conforme resolução do TSE explicada pela Agência Brasil. Horários e regras mudam de cidade para cidade: confira no site da prefeitura, da empresa de transporte ou do TRE do seu estado.

    Reduzir a frota no dia da votação é proibido. Se o ônibus da sua linha sumiu no domingo, denuncie ao TRE.

    Candidatos e partidos não podem oferecer transporte para eleitores. Isso é crime eleitoral.

    Faltei no primeiro turno. Posso votar no segundo?

    Pode. Cada turno é independente. Se o seu título não foi cancelado nem suspenso, você vota normalmente no dia 25.

    Mas votar no segundo turno não substitui a justificativa do primeiro. Os prazos são:

    • Faltou no 1º turno (4/10): justificar até 3 de dezembro de 2026.
    • Faltar no 2º turno (25/10): justificar até 8 de janeiro de 2027.

    A justificativa pode ser feita pelo aplicativo e-Título, pelo site do TSE ou no cartório eleitoral. Quem não justifica paga multa de R$ 3,51 por turno e, enquanto não regularizar, pode ter problema para tirar passaporte, tomar posse em concurso ou fazer matrícula em universidade pública. Três turnos seguidos sem votar nem justificar podem cancelar o título.

    Quem tem 16 ou 17 anos

    O voto é facultativo para quem tem 16 ou 17 anos, mas, se tirou o título, pode votar. É a chance de decidir sobre as regras que vão valer na sua vida de trabalhador, como a regulamentação do fim da escala 6×1.

    Na hora de votar

    • Em estados com segundo turno para governador, você vota primeiro para governador e depois para presidente.
    • Confira a foto do candidato na tela antes de apertar CONFIRMA.
    • Se errar o número, aperte CORRIGE e digite de novo.

    Antes de votar, compare

    Se ainda tem dúvida, veja nosso comparativo sobre o que os programas de Lula e Flávio dizem sobre trabalho e salário.

    Conclusão: saber como votar no 2º turno ajuda todo mundo a votar

    Saber como votar no 2º turno parece básico, mas é o tipo de informação que separa quem vota de quem desiste na porta. Mande este guia para quem trabalha no domingo, para quem mudou de cidade e para quem faltou no primeiro turno. Domingo, das 8h às 17h, horário de Brasília.

  • Fim da escala 6×1 aprovado: o que muda na sua jornada e quando

    Fim da escala 6×1 aprovado: o que muda na sua jornada e quando

    Agora é oficial. O fim da escala 6×1 foi aprovado pelo Senado na quarta-feira, 14 de outubro, por 75 votos a 1, nos dois turnos. Dois dias depois, na sexta-feira, 16, o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141, segundo a Agência Senado.

    É a maior mudança na jornada de trabalho desde a Constituição de 1988, quando o limite caiu de 48 para 44 horas. Para milhões de trabalhadores do comércio, de supermercados, de fast-food e de call centers, acaba o modelo de trabalhar seis dias e ter um único dia livre para resolver a vida inteira.

    Mas a mudança não acontece de um dia para o outro. Ela vem em etapas, tem exceções e ainda depende de negociação. Neste texto você entende o que muda, quando muda e o que fazer se o seu patrão tentar driblar a nova regra.

    O que a Emenda 141 muda

    A emenda mexe em três pontos, segundo a Agência Senado:

    • Duas folgas por semana: o repouso semanal remunerado passa a ser de dois dias, de preferência um deles no domingo.
    • Jornada menor: o limite cai de 44 para 40 horas por semana, com até 8 horas por dia.
    • Sem corte de salário: a redução não pode vir acompanhada de redução salarial.

    Quando cada mudança começa a valer

    Os prazos contam a partir da publicação da emenda no Diário Oficial, que deve acontecer logo depois da promulgação:

    • Em cerca de 60 dias (por volta de meados de dezembro de 2026): a jornada máxima cai de 44 para 42 horas, já com dois dias de descanso remunerado.
    • Um ano depois disso (por volta de dezembro de 2027): a jornada chega a 40 horas semanais.

    Esses primeiros 60 dias servem para empresas e sindicatos ajustarem as escalas. Cláusulas de acordos e convenções coletivas que contrariem a emenda perdem a validade ao fim desse prazo.

    Quem já trabalha 40 horas ou menos não tem a jornada reduzida proporcionalmente, nem perde salário.

    Quem fica de fora ou tem regra diferente

    Nem todo mundo é afetado da mesma forma:

    • Salários altos com diploma: a regra de 40 horas não se aplica a quem tem curso superior e ganha pelo menos 2,5 vezes o teto do INSS, ressalvado o que for negociado coletivamente. O repouso semanal continua garantido.
    • Servidores públicos: a jornada deles não é alterada pela emenda.
    • MEIs, micro e pequenas empresas: uma lei complementar ainda vai definir medidas de adaptação, condicionadas à manutenção dos empregos.
    • Setores que funcionam sem parar (saúde, segurança, transporte): a compensação das folgas pode seguir uma média, com dois dias de descanso por semana no mês e pelo menos uma folga a cada sete dias.

    O que ainda está em disputa

    A aprovação foi uma vitória enorme, mas a briga não acabou. Três frentes merecem atenção:

    1. A regulamentação. O relator, senador Omar Aziz, reconheceu que a carga horária de setores específicos ainda precisa ser regulamentada pelo Congresso. É nesse detalhe que o empresariado tenta recuperar o que perdeu.
    2. As negociações dos próximos 60 dias. A emenda permite que acordos coletivos ampliem a jornada diária para chegar às 42 horas. Sindicato fraco significa acordo ruim. Por isso, a organização no local de trabalho e no sindicato conta mais do que nunca agora, e lembre que greve é direito garantido pela Constituição.
    3. A contraofensiva. A oposição apresentou a PEC 12/2026, que propõe um regime mais flexível. A pressão que garantiu a aprovação vai ser necessária de novo para não deixar a conquista ser esvaziada.

    O que fazer se a empresa não cumprir

    • Guarde provas: anote seus horários, tire foto do ponto e da escala.
    • Procure o sindicato da sua categoria. Ele conhece a convenção coletiva e tem assessoria jurídica.
    • Denuncie à Superintendência Regional do Trabalho.
    • Justiça do Trabalho: você pode cobrar direitos até 2 anos depois de sair do emprego, referentes aos últimos 5 anos trabalhados.

    Para relembrar como a PEC tramitou e quem tentou barrar, veja o nosso texto sobre a chegada da PEC ao plenário.

    Por que essa vitória importa

    A redução da jornada nunca foi presente de governo ou de patrão. A jornada de 8 horas nasceu de greves e de mortes, como lembramos no texto sobre a história do 1º de Maio. O fim da 6×1 começou com um abaixo-assinado de trabalhadores do comércio e virou pauta nacional por pressão, não por boa vontade.

    Para Marx, a luta pela jornada é o centro do conflito entre capital e trabalho: cada hora a menos de trabalho é uma hora a menos de mais-valia para o patrão e uma hora a mais de vida para quem trabalha.

    Conclusão: o fim da escala 6×1 é lei, agora é fazer valer

    O fim da escala 6×1 está na Constituição. A partir de dezembro, a jornada começa a cair e as duas folgas passam a ser direito. Mas direito no papel só vira realidade com organização: acompanhe as negociações da sua categoria e cobre o cumprimento da nova regra.

    Compartilhe com quem ainda trabalha seis dias por semana e conte nos comentários como está a escala na sua empresa.

  • 33 milhões não votaram: o que a abstenção diz sobre o Brasil

    33 milhões não votaram: o que a abstenção diz sobre o Brasil

    No primeiro turno de 2026, 33,4 milhões de brasileiros aptos a votar não apareceram na urna. É mais gente do que a população inteira de vários países da América do Sul. A abstenção nas eleições de 2026 chegou a 21,08% do eleitorado, segundo dados do TSE divulgados pela Agência Brasil.

    Agora compare: a diferença entre Flávio Bolsonaro e Lula no primeiro turno foi de cerca de 2,2 milhões de votos. A abstenção é 15 vezes maior que isso.

    Em outras palavras, quem vai decidir o dia 25 não é só quem votou no dia 4. É também quem ficou em casa.

    Neste texto mostramos os números, discutimos por que tanta gente deixa de votar e o que isso tem a ver com a juventude trabalhadora.

    Os números da abstenção em 2026

    • Eleitorado: 158,7 milhões de pessoas aptas.
    • Compareceram: cerca de 125,2 milhões.
    • Abstenção: 33,4 milhões, ou 21,08%.
    • Em 2022: a abstenção do primeiro turno foi de 20,9%, cerca de 32,7 milhões.
    • Brancos e nulos para presidente: 2,3 milhões de votos em branco e 3,6 milhões de nulos.

    Em número absoluto, é a maior abstenção numa eleição geral recente. Em percentual, fica perto do patamar de 1998 (21,49%).

    E a juventude?

    O voto é facultativo para quem tem 16 ou 17 anos. Em 2026, os eleitores de 16 a 18 anos somam pouco mais de 3,5 milhões, cerca de 2,25% do eleitorado. Em 2022 eram cerca de 4,1 milhões, segundo dados do TSE citados pela Tribuna do Planalto. Ou seja, menos jovens tiraram o título.

    Isso conversa com o que já discutimos sobre por que a juventude precisa se organizar politicamente. Quando o jovem não se vê representado, ele se afasta. E, quando se afasta, quem decide são os outros.

    Por que tanta gente não vota

    Não existe uma causa só. Algumas explicações aparecem com frequência entre pesquisadores e na experiência de quem trabalha:

    Trabalho e distância

    Muita gente trabalha no domingo da eleição, em comércio, transporte, saúde, aplicativo. Outros mudaram de cidade e não transferiram o título. Para quem mora longe da seção, o custo da passagem já pesava antes do transporte gratuito virar regra nacional.

    Descrença

    Uma parte grande deixa de votar porque acha que “nada muda”. É uma reação compreensível quando a vida não melhora de eleição para eleição. Mas a descrença não esvazia o poder: só entrega a decisão a quem continua votando.

    Desorganização da vida

    Título cancelado por falta de justificativa, multa não paga, documento perdido. A burocracia afasta justamente quem tem a vida mais corrida.

    O que a abstenção tem a ver com classe

    Abstenção não é igual em todos os lugares. Ela costuma ser maior onde a vida é mais difícil: periferias, regiões mais pobres, trabalhadores com jornadas longas. Quem trabalha em escala 6×1 e tem um dia de folga por semana muitas vezes precisa escolher entre resolver a vida e ir votar.

    Por isso, aumentar o comparecimento também é uma pauta de classe. Transporte gratuito no dia da votação, seções perto de casa e menos burocracia são medidas que ampliam a participação de quem mais depende do Estado.

    O TSE quer reduzir a abstenção no 2º turno

    O TSE anunciou que vai trabalhar para reduzir a abstenção no segundo turno, segundo a Agência Brasil. O transporte público urbano deve ser gratuito no dia 25 e, mesmo quem faltou no primeiro turno, pode votar no segundo se o título estiver regular.

    Na sexta-feira (23) publicamos um guia prático com tudo o que você precisa para votar.

    Conclusão: a abstenção nas eleições 2026 pode decidir o resultado

    A abstenção nas eleições de 2026 é maior que a diferença entre os dois candidatos. Isso faz de cada pessoa que ficou em casa no dia 4 alguém que pode decidir o dia 25.

    Converse com quem não foi votar. Não com sermão, mas com informação: onde vota, como chegar, o que está em jogo para o trabalho e o salário. Compartilhe este texto.

  • Novo Congresso 2027: o que muda para o trabalhador jovem

    Novo Congresso 2027: o que muda para o trabalhador jovem

    O segundo turno vai decidir quem senta na cadeira de presidente. Mas uma parte enorme do poder já foi decidida no dia 4 de outubro. O novo Congresso de 2027 saiu das urnas mais à direita do que o atual, e é ele que vai votar as leis sobre o seu trabalho, o seu salário e a sua aposentadoria pelos próximos quatro anos.

    O PL, partido de Jair e Flávio Bolsonaro, elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara. No Senado, o partido chega a 28 cadeiras. São números que mudam o jogo.

    Ao mesmo tempo, os partidos tradicionais de centro perderam espaço. O “centrão” continua decisivo, mas o centro de gravidade se deslocou.

    Neste texto mostramos como ficou a composição, o que um Congresso assim consegue fazer (ou travar) e o que isso significa para a juventude trabalhadora.

    Como ficou a Câmara dos Deputados

    Segundo a apuração publicada pela CNN Brasil, estas são as maiores bancadas eleitas para 2027:

    • PL: 121 deputados (eram 99 eleitos em 2022)
    • Federação PT-PCdoB-PV: 88
    • União-PP: 87
    • PSD: 43
    • Republicanos: 41
    • MDB: 36
    • Podemos: 27
    • PSB: 15
    • Federação PSOL-Rede: 15
    • PSDB-Cidadania: 11
    • Novo: 10

    A Câmara tem 513 cadeiras. Os números ainda podem ter ajustes finos até a diplomação pelo TSE.

    O que dá para fazer com esses números

    Uma PEC precisa de 171 assinaturas só para começar a tramitar. Somados, PL, Novo e Republicanos passam desse mínimo, como observou o O Povo. Ou seja: a direita sozinha consegue propor mudanças na Constituição, sem precisar de mais ninguém.

    Como ficou o Senado

    No Senado, a mudança é ainda mais forte. Das 54 vagas em disputa, 33 foram para nomes alinhados à direita ou à extrema direita, segundo levantamento do Extra Classe. A partir de 2027, esse campo deve somar pelo menos 50 dos 81 senadores.

    Só o PL terá 28 senadores. Com isso, o partido sozinho consegue abrir uma CPI, que exige 27 assinaturas.

    Por que o Senado pesa tanto

    É no Senado que muita pauta trabalhista morre. A PEC do fim da escala 6×1, por exemplo, ficou meses parada lá depois de aprovada na Câmara. O Senado também aprova indicações ao Supremo Tribunal Federal e pode abrir processos de impeachment.

    O que um Congresso assim significa para quem trabalha

    Um Congresso mais à direita não quer dizer que todo direito cai no dia seguinte. Mas muda a correlação de forças, ou seja, o tamanho de cada lado na disputa.

    Algumas consequências prováveis, a partir do que os próprios eleitos defendem:

    • Pautas como o fim da escala 6×1 ficariam mais difíceis a partir de 2027. Por isso a pressa: a PEC foi aprovada em 14 de outubro, ainda com o Congresso atual. A regulamentação, porém, vai ficar com o novo.
    • Propostas de flexibilização, como jornada “flexível”, contratos com menos encargos para jovens e negociação individual, ganham terreno. Esses pontos aparecem no programa de Flávio Bolsonaro.
    • Orçamento de saúde e educação fica mais exposto a cortes. Já mostramos como o SUS sofre com o subfinanciamento mesmo em cenários mais favoráveis.

    Por que a juventude é a mais afetada

    Quem tem 18, 20, 25 anos é quem vai viver por mais tempo sob as regras que esse Congresso aprovar. E é a faixa que mais trabalha em empregos precários: comércio, aplicativo, telemarketing, escala 6×1.

    Contrato “mais barato” para jovem quase sempre quer dizer menos direito para jovem. Foi o que se tentou com a Carteira Verde e Amarela, que reduzia FGTS e multa rescisória para quem estava no primeiro emprego.

    Eleição não é o único terreno de luta

    O resultado no Congresso é ruim para a classe trabalhadora, e não adianta fingir que não é. Mas a história mostra que conquista não vem só de voto: vem de organização. O Congresso que aprovou a reforma trabalhista em 2017 também foi o que, sob pressão das ruas, agora discute reduzir a jornada.

    É por isso que defendemos que a juventude precisa se organizar politicamente, em sindicato, movimento estudantil, coletivo de bairro. Um Congresso hostil se enfrenta com gente organizada do lado de fora.

    Conclusão: o novo Congresso 2027 exige mais organização

    O novo Congresso 2027 é mais conservador, com o PL maior nas duas Casas. Isso torna mais difícil avançar em direitos e mais fácil retirá-los. A resposta não é desânimo: é acompanhar votação por votação, cobrar quem foi eleito e construir força fora do parlamento.

    Compartilhe com quem acha que a eleição acabou no dia 4. Ela está só começando.

  • Fim da escala 6×1: Senado vota a PEC nesta quarta (14)

    Fim da escala 6×1: Senado vota a PEC nesta quarta (14)

    Atualização (19/10/2026): aprovado e promulgado. O Senado aprovou o fim da escala 6×1 em 14 de outubro, por 75 votos a 1, e o Congresso promulgou a Emenda Constitucional 141 em 16 de outubro. A jornada cai para 42 horas em cerca de 60 dias e para 40 horas um ano depois, sem corte de salário. Veja o que muda na sua jornada e quando. O texto abaixo foi escrito antes da votação.

    Depois de cinco meses de espera, o fim da escala 6×1 tem data para ser votado no Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, pautou para quarta-feira, 14 de outubro, a votação em primeiro turno da PEC 221/2019, a proposta que reduz a jornada máxima e garante dois dias de folga por semana.

    Para quem trabalha seis dias e descansa um, essa é a votação mais importante do ano. E ela acontece no meio de uma disputa presidencial, o que transformou a pauta em campo de batalha eleitoral.

    A Câmara aprovou o texto em maio, com folga. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou em setembro, sem mudanças. Agora falta o plenário: 49 votos, em dois turnos.

    Neste texto você entende o que a PEC muda na prática, como funciona a votação, quem está tentando atrasar e por que a pressão dos próximos dias faz diferença.

    O que a PEC do fim da escala 6×1 muda

    A proposta mexe em três coisas, sem reduzir salário:

    • Jornada menor: a jornada máxima cai de 44 para 40 horas semanais, em duas etapas. São 2 horas a menos 60 dias depois da promulgação e mais 2 horas um ano depois.
    • Duas folgas: a semana passa a ter pelo menos dois dias de descanso remunerado, de preferência um deles no domingo.
    • Sem corte: a redução vem sem diminuição do salário.

    Na prática, é o fim do modelo em que o trabalhador de supermercado, de fast-food ou de call center tem um único dia livre para resolver a vida inteira. Já explicamos em detalhe o que a escala 6×1 faz com o corpo e com a rotina de quem trabalha.

    Como funciona a votação no Senado

    Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) precisa de três quintos dos senadores: 49 dos 81 votos, em dois turnos. Entre um turno e outro, o regimento exige três sessões de discussão.

    Esse intervalo é o ponto da briga. Se todas as etapas forem cumpridas no ritmo normal, o segundo turno pode ficar para depois da eleição de 25 de outubro, segundo a CNN Brasil.

    Por isso a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), recolhe assinaturas para um calendário especial, que permitiria votar os dois turnos na mesma semana. Esse requerimento precisa do apoio de 54 senadores. Alcolumbre disse que coloca o pedido em votação assim que ele chegar.

    Se aprovar, o que acontece

    Aprovada nos dois turnos sem mudança no texto, a PEC vai à promulgação pelo Congresso. Emenda constitucional não passa por sanção do presidente. Se o Senado alterar o texto, ele volta para a Câmara, e o processo se alonga.

    Quem tenta barrar o fim da escala 6×1

    A oposição ligada à campanha de Flávio Bolsonaro trabalha para atrasar. O líder da oposição, Rogério Marinho (PL-RN), chamou o debate de “oportunista” e disse defender uma “jornada flexível”, segundo a Agência Pública.

    Os argumentos da oposição são três:

    • Prazo eleitoral: votar agora seria usar a pauta na campanha.
    • Regras por setor: uma regra nacional prejudicaria setores com escalas próprias.
    • Negociação direta: jornada deveria ser combinada entre patrão e empregado.

    O próprio Flávio propõe pagamento proporcional às horas trabalhadas e acordos individuais no lugar da negociação coletiva. Na vida real, “acordo individual” entre um caixa de supermercado e uma rede com milhares de lojas não é negociação: é imposição.

    Por que a oposição evita votar contra de frente

    Segundo a CNN, parte da oposição considera a PEC popular demais para votar contra abertamente. Por isso a estratégia é atrasar ou propor mudanças no texto, o que devolveria a proposta à Câmara.

    Os números explicam o cuidado. Pesquisa Datafolha citada pelo Extra Classe mostra que pelo menos 70% da população quer o fim da escala 6×1. Ninguém quer ser lembrado, na véspera do segundo turno, como o senador que votou para manter seis dias de trabalho.

    O que isso tem a ver com luta de classes

    Toda redução de jornada da história foi arrancada, não concedida. A jornada de 8 horas, o descanso semanal e as férias vieram de greves e organização, como contamos na história do 1º de Maio.

    A lógica é simples: cada hora a mais de trabalho sem aumento de salário é valor a mais para o patrão. É o que Marx chamou de mais-valia. Reduzir a jornada sem reduzir o salário mexe exatamente nessa conta. Por isso a resistência é tão grande.

    Conclusão: a votação do fim da escala 6×1 depende de pressão

    A PEC do fim da escala 6×1 chegou ao plenário porque milhões de trabalhadores colocaram a pauta na rua e nas redes. A quarta-feira é o teste. Se o primeiro turno passar, o próximo passo é garantir o segundo antes que o tema seja enterrado depois da eleição.

    Procure no site do Senado como votam os senadores do seu estado e cobre o voto deles. Compartilhe este texto com quem trabalha em escala 6×1. Vamos acompanhar o resultado aqui no Jovem Comunista.

  • Quem foi Antonio Gramsci: hegemonia, intelectual orgânico e luta política

    Quem foi Antonio Gramsci: hegemonia, intelectual orgânico e luta política

    Em 1926, Mussolini mandou prender o líder do Partido Comunista da Itália. No julgamento, segundo relato consagrado pela tradição comunista italiana, o promotor disse algo próximo a: “Devemos impedir este cérebro de funcionar por vinte anos.” Não conseguiu. O homem ficou onze anos no cárcere fascista, escreveu cerca de 3 mil páginas em cadernos escolares contrabandeados pelos guardas, morreu antes dos 50 anos — e produziu o pensamento marxista mais original do século XX depois de Lenin. Seu nome era Antonio Gramsci.

    Para a juventude que estuda política a sério, conhecer Gramsci não é luxo erudito — é necessidade. Os conceitos que ele forjou no cárcere (hegemonia, intelectual orgânico, sociedade civil, guerra de posição) são instrumentos que, melhor do que muito jargão acadêmico, ajudam a entender o Brasil de hoje: por que perdemos batalhas culturais, por que a direita avançou nas redes, por que a luta política não se reduz a eleição.

    Este texto apresenta a vida de Gramsci e três conceitos centrais para o marxismo contemporâneo: Antonio Gramsci hegemonia, intelectual orgânico, e a distinção entre sociedade civil e sociedade política. E mostra por que tudo isso é leitura urgente para a esquerda brasileira em 2026.

    Vida: da Sardenha ao cárcere fascista

    Antonio Gramsci nasceu em 1891 em Ales, na Sardenha — uma das regiões mais pobres da Itália. Sua família era de pequena classe média, mas mergulhou na miséria quando o pai foi preso por irregularidades administrativas, sob acusações políticas. Gramsci cresceu marcado pela pobreza, por uma deficiência física que limitava seu corpo desde a infância e por uma sensibilidade aguda à “questão meridional” — a desigualdade brutal entre o sul agrário e o norte industrial italiano.

    Ganhou bolsa para estudar em Turim, então capital industrial do país, onde se inseriu no movimento socialista, escreveu para jornais operários, militou na fábrica e na universidade. Em 1919–1920, junto com Palmiro Togliatti e outros, foi figura central do “biênio vermelho” italiano: greves, ocupações de fábricas em Turim, conselhos operários — uma experiência que o marcaria para sempre, e a partir da qual desenvolveu ideia de que a classe trabalhadora precisa criar suas próprias formas de poder e de cultura desde já, dentro do capitalismo.

    Em 1921, no congresso de Livorno, participou da fundação do Partido Comunista da Itália, em ruptura com o Partido Socialista. Foi à União Soviética como representante do partido, casou-se com Júlia Schucht, voltou à Itália, foi eleito deputado em 1924 — meses antes de Mussolini consolidar o regime fascista. Em novembro de 1926, apesar da imunidade parlamentar, foi preso. O julgamento ocorreu em 1928. Foi condenado a vinte anos de prisão.

    Passou quase onze anos no cárcere, em condições de saúde cada vez mais frágeis. Foi nessa situação extrema, longe de bibliotecas, com lápis e cadernos escolares, sob censura, que escreveu os Cadernos do Cárcere: 33 cadernos manuscritos, redigidos entre 1929 e 1935, totalizando mais ou menos 3 mil páginas. Morreu em 1937, em Roma, dias depois de finalmente conseguir liberdade condicional, de hemorragia cerebral.

    Hegemonia: o conceito-chave

    Hegemonia é a categoria mais conhecida e mais original de Gramsci. Ela não nasceu com ele — vem do movimento operário russo do início do século XX e é mencionada por Lenin —, mas foi Gramsci quem a desenvolveu ao ponto de torná-la chave de leitura do poder no capitalismo desenvolvido.

    A pergunta que move Gramsci é: por que, mesmo em países de capitalismo avançado e classe operária numerosa, as revoluções socialistas não chegavam? Por que a Itália, que havia chegado tão perto em 1919–1920, recuou para o fascismo em vez de avançar para o socialismo? A resposta clássica — força repressiva do Estado — não bastava. Gramsci propôs: porque o poder das classes dominantes não se sustenta apenas em força. Sustenta-se também em consenso.

    Hegemonia é exatamente isso: a capacidade de uma classe dominante de organizar, dirigir e tornar aceitável seu domínio para o conjunto da sociedade — inclusive para classes subalternas. Não através de tanques, mas através de escola, mídia, igreja, família, costumes, língua, “senso comum”. Hegemonia é coerção forrada de cultura. É domínio que se faz parecer natural.

    Para a esquerda, essa intuição tem consequências enormes. Se o poder se reproduz na cultura, no cotidiano, na escola, na linguagem — então conquistar o poder político de cima sem ter conquistado hegemonia cultural por baixo é construção em areia. Foi por isso que Gramsci falou em “guerra de posição”: a luta socialista nas sociedades modernas exige paciência estratégica, ocupação de instituições, batalha de longo prazo pelos significados, em paralelo (e não em substituição) à organização política e econômica das classes trabalhadoras.

    Intelectual orgânico: ninguém é neutro

    Outro conceito central é o de intelectual orgânico. Gramsci recusa a ideia de “intelectual neutro” ou “isento”. Para ele, todo intelectual — professor, jornalista, padre, médico, advogado, técnico — articula, mesmo sem perceber, interesses de classe e visões de mundo de determinados grupos sociais.

    Existem dois tipos básicos. Os intelectuais tradicionais aparecem como “intelectuais em si” — herdeiros de uma instituição (Igreja, universidade, ordens profissionais) que parece ter autonomia em relação à sociedade, mas que na verdade serve historicamente a classes dominantes específicas. Os intelectuais orgânicos são os que cada classe forma a partir de si mesma, para organizar sua visão de mundo, sua técnica produtiva, sua identidade política. A burguesia tem seus economistas, seus juristas, sua imprensa de negócios. A classe trabalhadora precisa formar os seus.

    “Todos os homens são intelectuais”, escreveu Gramsci, no sentido de que toda pessoa pensa e atribui significados ao mundo. Nem todos exercem essa função intelectual de forma profissional ou organizada. A pergunta política que se segue é: a classe trabalhadora consegue formar seus próprios intelectuais orgânicos — sindicalistas, professores, jornalistas, comunicadores, juristas — capazes de disputar a interpretação da realidade?

    É uma das pontes mais diretas entre Gramsci e o trabalho de comunicação que estamos fazendo aqui no Jovem Comunista: a ideia de que produzir um veículo de mídia marxista não é firula — é tarefa estratégica, formação de intelectuais orgânicos da juventude trabalhadora.

    Sociedade civil vs sociedade política

    Gramsci distingue duas dimensões do que se chama de “Estado em sentido amplo”. A sociedade política é o aparato repressivo: governo, polícia, tribunais, exército, leis. A sociedade civil é o conjunto de instituições “privadas” — escolas, universidades, igrejas, partidos, sindicatos, imprensa, associações — onde se forma o consenso e a hegemonia.

    Essa distinção parece simples, mas reorienta a estratégia política. Em sociedades de capitalismo desenvolvido, a sociedade civil é densa, complexa, ramificada — e é nela que se trava a parte mais importante da luta de classes em períodos de não-revolução. Em sociedades onde a sociedade civil é mais frágil (Gramsci pensa na Rússia em 1917), a tomada do poder político pode ser mais decisiva. Em sociedades como a Itália — ou o Brasil contemporâneo —, “guerra de posição” na sociedade civil é tarefa permanente.

    Esse é também o instrumento com que Gramsci pensa a tomada da hegemonia: a classe que sobe ao poder não toma só o aparelho de Estado, ela ocupa instituições da sociedade civil, forma seus intelectuais, organiza alianças, constrói consenso, redefine o que é “senso comum”. O fascismo, nesse esquema, é uma resposta brutal à hegemonia operária que vinha avançando — e a derrota da esquerda foi, antes de tudo, derrota cultural e organizacional na sociedade civil.

    Por que Gramsci hoje, no Brasil

    Pouca gente é tão atual no Brasil contemporâneo. Algumas razões.

    Primeiro, hegemonia explica o sucesso da extrema-direita brasileira na década de 2010-2020. O bolsonarismo não venceu apenas pela “fake news” ou pelo dinheiro do agronegócio: venceu porque construiu, ao longo de anos, uma articulação entre igrejas neopentecostais, redes sociais, mídia tradicional, polícias militares, militares, pequenos comerciantes, e uma narrativa moral que se tornou senso comum em vasto pedaço da sociedade. A esquerda perdeu a batalha cultural antes de perder a eleição.

    Segundo, intelectual orgânico explica o vácuo. Quando a esquerda institucional se acomodou, perdeu a tarefa de formar quadros — sindicalistas com formação política sólida, professores que pensem o currículo escolar como disputa, jornalistas com vínculos orgânicos com a classe trabalhadora, advogados populares, comunicadores. Esse vácuo foi ocupado pelos “intelectuais” da extrema-direita digital. Reconstruir essa camada é tarefa estratégica.

    Terceiro, sociedade civil vs sociedade política nos lembra que o jogo eleitoral, embora central, não é tudo. Eleger governos sem ter hegemonia na sociedade civil produz mandatos cercados, sabotados, derrotados — como vimos repetidamente. A construção de hegemonia popular é trabalho de décadas, em escolas, sindicatos, igrejas progressistas, mídias alternativas, movimentos sociais como organizações da classe trabalhadora e formações como a juventude comunista.

    Quarto, Gramsci nos protege contra a tentação do messianismo e do espontaneísmo. Hegemonia se constrói, não se decreta. Não há atalho. E também nos protege contra o ceticismo derrotista: a hegemonia da burguesia não é eterna, e nenhuma hegemonia popular se constrói sem trabalho de formiga, dia após dia.

    Onde ler Gramsci

    O texto fundamental de Gramsci são os Cadernos do Cárcere. Em português, há a edição da Civilização Brasileira em seis volumes, organizada por Carlos Nelson Coutinho, que dispõe os textos em temas (Estado, intelectuais, partido, cultura). É a referência. Para uma entrada mais leve, vale a coletânea Cartas do Cárcere, que mostra Gramsci pessoa, irmão, marido, sobrinho, leitor.

    Para começar, dois caminhos. Um livro introdutório (Carlos Nelson Coutinho, Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político, ou Edmundo Fernandes Dias, Gramsci em Turim) ajuda a montar o panorama antes de ir aos Cadernos. Depois, ler trechos selecionados dos Cadernos diretamente — sobre intelectuais, hegemonia, partido, americanismo —, em grupo de estudo se possível.

    Outras leituras essenciais: o glossário marxista do Jovem Comunista para os termos técnicos, e o texto sobre dialética marxista, fundamento metodológico que Gramsci também opera. Quem quer aprofundar a tradição contemporânea vale o nosso guia de cinco livros para começar a estudar marxismo.

    Conclusão: o cérebro que continuou funcionando

    Gramsci é uma dessas figuras raras que combinam três coisas: rigor teórico no mais alto nível, militância pertinaz e uma vida pessoal de coragem moral. Pagou caro por todas as três. Mas o cérebro que Mussolini quis impedir de funcionar por vinte anos continua funcionando — sobretudo onde mais importa, que é em quem o lê para pensar a própria luta.

    Para a juventude brasileira em 2026, Gramsci é leitura urgente. Estudar hegemonia, intelectual orgânico e sociedade civil é entender por que estamos onde estamos — e como se constrói a saída. Comece pelas cartas. Avance aos cadernos. Forme grupo de estudo. E aplique aquilo que aprender, todo dia, na escola, no trabalho, no bairro, nas redes.

    Referências

    • Gramsci, A. Cadernos do Cárcere. Civilização Brasileira (6 vols., org. Carlos Nelson Coutinho).
    • Gramsci, A. Cartas do Cárcere. Civilização Brasileira.
    • Coutinho, C. N. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Civilização Brasileira.
    • Marxists Internet Archive — Gramsci em português: marxists.org/portugues/gramsci
  • Quem foi Rosa Luxemburgo: a comunista mais lúcida do século XX

    Quem foi Rosa Luxemburgo: a comunista mais lúcida do século XX

    Em janeiro de 1919, depois de ser presa, espancada e executada pelos Freikorps em Berlim, o corpo de uma mulher de 47 anos foi jogado no canal Landwehr. Levou meses para ser encontrado. Era Rosa Luxemburgo, e seu assassinato — junto com o de Karl Liebknecht — marcou o fim de uma era do movimento operário europeu e a abertura de uma das tragédias políticas do século XX.

    Cem anos depois, ela continua sendo uma das figuras mais lidas, citadas e — ainda — mal compreendidas do marxismo. A Rosa Luxemburgo biografia é a história de uma intelectual judia, polonesa, deficiente, mulher, comunista, que num ambiente racista, nacionalista e patriarcal se tornou a teórica mais original da social-democracia europeia e a militante mais corajosa do movimento operário alemão.

    Este texto apresenta sua trajetória, suas obras centrais — em especial A Acumulação do Capital e Reforma ou Revolução — e o que torna seu pensamento atual hoje, em pleno século XXI, para uma juventude que precisa pensar capitalismo, democracia, partido e revolução com rigor.

    Origens: Polônia, Alemanha e a formação intelectual

    Rosa Luxemburgo nasceu por volta de 1870–1871 em Zamość, no Reino da Polônia então sob domínio do Império Russo, em uma família judaica de classe média comerciante. Era a caçula de cinco irmãos. Cresceu em Varsóvia, foi educada em colégio para meninas e desde cedo se envolveu com círculos políticos clandestinos contrários ao czarismo e ao nacionalismo polonês mais conservador.

    Aos 18 anos, ameaçada de prisão, atravessou a fronteira clandestinamente para a Suíça. Em Zurique fez doutorado em economia — algo notável para uma mulher e para uma estrangeira naquele tempo —, com tese sobre o desenvolvimento industrial da Polônia. Já nessa época militava na fundação do Partido Social-Democrata do Reino da Polônia e da Lituânia (SDKPiL), em divergência com a tradição mais nacionalista de outras correntes socialistas polonesas.

    Em 1898 mudou-se para a Alemanha, casando-se formalmente para obter cidadania alemã, e ingressou na social-democracia alemã (SPD), o maior e mais influente partido socialista do mundo na virada do século. Ali iria viver, pensar, escrever e morrer.

    A teórica: rigor, originalidade e independência

    Em poucos anos dentro da SPD, Rosa se firmou como uma das vozes teóricas mais respeitadas — e mais combatidas — do partido. Era jornalista, polemista, professora na escola de quadros do SPD, e participava ativamente do debate marxista internacional. Junto com nomes como Kautsky, Bebel, Bernstein, Lenin, Trotski, Plekhanov, Mehring, ela compunha a geração que herdou Marx e Engels e teve que aplicá-los a um capitalismo já bastante diferente daquele de 1848.

    O que distinguia Rosa? Algumas coisas. Primeiro, uma insistência rara em pensar o capitalismo como sistema mundial, não apenas como economia nacional. Segundo, uma defesa intransigente da democracia operária e da espontaneidade revolucionária das massas, em tensão com leituras mais centralizadoras do partido. Terceiro, uma disposição para divergir de aliados poderosos quando a teoria pedia — divergência que pagaria caro, intelectual e politicamente.

    A Acumulação do Capital (1913): imperialismo e crise sistêmica

    O livro mais ambicioso de Rosa Luxemburgo é A Acumulação do Capital, publicado em 1913. Nele, Rosa aborda um problema teórico que Marx havia deixado em aberto no Livro II de O Capital: como é possível, no capitalismo puro, que a mais-valia produzida em escala ampliada encontre mercado para se realizar? Sua resposta foi heterodoxa e gerou intensa polêmica: o capitalismo, sustentou ela, só consegue se reproduzir em escala ampliada porque incorpora continuamente regiões e populações não-capitalistas ao seu mercado, espoliando-as.

    Esse argumento teve duas consequências importantes. Primeiro, deu ao imperialismo uma fundamentação econômica estrutural: não é desvio nem política, é necessidade do próprio capitalismo. Segundo, sugeriu que o sistema tem um limite histórico interno: quando o “fora” não-capitalista se esgota, ou quando sua espoliação chega a ponto de paralisar a reprodução, o capitalismo entra em crise sistêmica.

    A obra foi criticada por marxistas ortodoxos como Bukhárin e por outros teóricos da Segunda Internacional. Ainda hoje a tese de Luxemburgo é objeto de debate. Mas é difícil ler hoje a expansão capitalista sobre territórios indígenas, sobre o trabalho informal global, sobre os limites planetários ecológicos, sem reconhecer a força de sua intuição.

    Reforma ou Revolução (1900): a polêmica com Bernstein

    Antes do livro maior, em 1900, Rosa havia publicado o panfleto que talvez seja seu texto mais lido: Reforma ou Revolução?. Era uma resposta direta a Eduard Bernstein, líder da chamada corrente “revisionista” da SPD, que sustentava que o capitalismo havia se estabilizado, que as crises eram administráveis, que o Estado podia ser progressivamente conquistado por reformas e que, portanto, a perspectiva revolucionária do marxismo estava superada.

    Rosa contestou ponto a ponto. Para ela, reformas eram fundamentais — não como degraus para o socialismo, mas como instrumentos de organização, consciência e fortalecimento da classe trabalhadora. Reforma e revolução não eram alternativas. Quem abandonasse a perspectiva revolucionária acabaria, no longo prazo, esvaziando também as reformas, porque perderia a força de pressão que as torna possíveis.

    O debate Bernstein–Luxemburgo é fundador para entender a divisão posterior entre social-democracia reformista e comunismo revolucionário. Quem quiser ler hoje sobre por que a esquerda institucionalizada perde força quando se acomoda à gestão do capitalismo encontrará em Reforma ou Revolução argumentos que não envelheceram.

    A militante: prisões, oratória e luta antibélica

    Rosa não era apenas teórica. Era oradora extraordinária — capaz de discursar por horas para multidões — e organizadora pertinaz. Foi presa diversas vezes na Alemanha pelo conjunto de suas atividades políticas, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial.

    Sua atuação na guerra é uma das páginas mais corajosas da história do socialismo. Em 1914, quando a maioria dos partidos socialistas europeus — incluindo a SPD — votou pelos créditos de guerra e apoiou os respectivos governos no conflito imperialista, Rosa rompeu publicamente com a maioria do partido. Junto com Karl Liebknecht, Franz Mehring e Clara Zetkin, organizou a corrente que viria a ser conhecida como Liga Espartaquista, em oposição radical à guerra. Essa posição lhe custou anos de prisão.

    Foi na prisão que escreveu textos como o Folheto Junius (uma análise demolidora da guerra como produto necessário do imperialismo) e cartas que ainda hoje são lidas pela combinação rara de rigor político, sensibilidade humana e amor à literatura, à música, à natureza. As Cartas da Prisão são porta de entrada amorosa ao seu pensamento.

    1919: o assassinato e a derrota da revolução alemã

    Quando saiu da prisão, no fim de 1918, com a derrota alemã na guerra e a abdicação do Kaiser, Rosa se viu no centro de uma situação revolucionária. A Liga Espartaquista se transformou no Partido Comunista da Alemanha (KPD), fundado nos últimos dias de 1918. A República de Weimar nascia, e setores radicais da classe trabalhadora reivindicavam ir mais longe, na linha dos sovietes russos.

    Em janeiro de 1919, uma insurreição operária mal preparada — que a própria Rosa avaliou como prematura, mas a qual decidiu apoiar uma vez deflagrada — foi esmagada com violência extrema pelo governo social-democrata, que recorreu aos Freikorps, milícias paramilitares de extrema-direita. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram capturados, espancados, executados sumariamente e seus corpos descartados. O dela, jogado no canal Landwehr, em Berlim, só apareceu meses depois.

    O assassinato foi um trauma que marcou todo o século XX. A direita alemã, que pavimentaria o caminho para o nazismo, comemorou abertamente. Setores da social-democracia foram cúmplices. O movimento operário alemão saiu mutilado dessa derrota. A frase atribuída a Rosa em seu último artigo — algo como “a ordem reina em Berlim, mas reina sobre montanhas de cadáveres” — passou à história como epitáfio da revolução alemã.

    Legado: Rosa Luxemburgo hoje

    Rosa Luxemburgo deixa, mais de cem anos depois, um legado que excede em muito sua época. Algumas linhas em que seu pensamento permanece vivo: a crítica do imperialismo como necessidade econômica do capitalismo, central para entender a posição do Brasil e da América Latina hoje; a defesa intransigente da democracia interna no movimento socialista, contra qualquer culto da disciplina burocrática; a recusa do nacionalismo como bandeira da esquerda; a articulação entre reforma e revolução sem oposição abstrata; a ética da militância — escrever bem, viver com dignidade, sentir o mundo, e ainda assim lutar até o fim.

    Ela é também figura simbólica para o feminismo socialista. Mulher, judia, deficiente, estrangeira, recusou-se a ser limitada por essas marcas e ao mesmo tempo nunca renegou nenhuma delas. Junto com Clara Zetkin, foi peça-chave na construção das primeiras articulações entre luta de classes, antimilitarismo e emancipação das mulheres na social-democracia europeia.

    Para a juventude brasileira que estuda marxismo agora, Rosa é leitura indispensável. Recomenda-se começar por Reforma ou Revolução e pelas Cartas da Prisão, e seguir por A Acumulação do Capital em grupo de estudo. Os textos estão disponíveis em português no Marxists Internet Archive em português. Vale também o glossário marxista para os termos técnicos, e o texto sobre dialética marxista, que ela operava com maestria.

    Conclusão: a mais lúcida porque a mais livre

    Rosa Luxemburgo não foi a maior teórica do marxismo do século XX por acaso. Foi por uma combinação rara de rigor, coragem, independência intelectual e ética da militância. Pensava por conta própria, mesmo dentro do movimento. Discordava dos seus quando a teoria pedia. Pagou caro por isso — primeiro com prisão, depois com a vida.

    Ler Rosa hoje é também um exercício de antídoto contra a esquerda burocratizada, contra o sectarismo, contra o messianismo. Ela ensina que socialismo sem democracia é regressão, que partido sem massa é seita, e que teoria sem prática é vaidade. Comece pelas cartas. Continue pelos panfletos. Volte sempre.

    Referências

    • Luxemburgo, R. Reforma ou Revolução? 1900.
    • Luxemburgo, R. A Acumulação do Capital. Berlim, 1913.
    • Luxemburgo, R. Folheto Junius — A crise da social-democracia. 1916.
    • Luxemburgo, R. Cartas da Prisão (coletâneas).
    • Marxists Internet Archive — Rosa Luxemburgo em português: marxists.org/portugues/luxemburgo
  • CLT sob Ataque: Por que os Direitos Trabalhistas São uma Conquista que Precisamos Defender

    CLT sob Ataque: Por que os Direitos Trabalhistas São uma Conquista que Precisamos Defender

    Introdução

    Em 1943, após décadas de luta operária e pressão dos movimentos sindicais, o Brasil consolidou a Consolidação das Leis do Trabalho — a CLT. Férias remuneradas, 13º salário, jornada de oito horas, licença-maternidade, adicional de hora extra: cada um desses direitos foi conquistado com sangue, greve e organização da classe trabalhadora.

    Hoje, em 2026, esses mesmos direitos estão sob ataque sistemático. Não por acidente, não por incompetência — mas por decisão política deliberada de quem governa para o capital.

    Este artigo explica por que os direitos trabalhistas são centrais para a vida dos jovens brasileiros e por que sua defesa é uma questão de sobrevivência para a classe trabalhadora.

    O que foi a Reforma Trabalhista e o que ela fez

    A Reforma Trabalhista de 2017, aprovada pelo governo Temer, foi um dos maiores retrocessos sociais da história recente do Brasil. Sob o argumento de “modernizar” as relações de trabalho e “gerar empregos”, a reforma:

    — Permitiu que acordos individuais entre patrão e empregado se sobreponham à lei, colocando o trabalhador — sem poder de barganha — negociando sozinho com o empresário;
    — Legalizou o trabalho intermitente, onde o trabalhador fica à disposição da empresa sem garantia de renda mínima;
    — Enfraqueceu os sindicatos ao eliminar a contribuição sindical obrigatória;
    — Facilitou a terceirização irrestrita, incluindo na atividade-fim das empresas, fragmentando a classe trabalhadora e dificultando a organização coletiva;
    — Criou o “teletrabalho” sem regulamentação adequada, transferindo custos da empresa para o trabalhador.

    O resultado? Mais precarização, mais informalidade, salários menores. Segundo dados do IBGE, a proporção de trabalhadores sem carteira assinada ou por conta própria sem proteção social cresceu nos anos seguintes à reforma. O “emprego” que surgiu não era emprego — era uberização da vida.

    A Uberização: o Novo Rosto da Exploração

    Falar de direitos trabalhistas hoje é impossível sem falar de uberização. Milhões de jovens brasileiros trabalham como entregadores, motoristas e prestadores de serviço por aplicativos — sem vínculo empregatício, sem férias, sem 13º, sem direito a doença.

    São chamados de “empreendedores”. Mas empreendedor não é quem não tem escolha. Empreendedor não é quem trabalha 12, 14 horas por dia para faturar o equivalente a um salário mínimo. Empreendedor não é quem não pode adoecer porque não tem ninguém para pagar suas contas se ficar de cama.

    A uberização é a mais recente forma de extração de mais-valia: o capital reduz ao máximo seus custos transferindo todo o risco para o trabalhador, enquanto fica com a maior parte do valor gerado.

    A luta dos entregadores — que chegaram a organizar greves nacionais, como a de julho de 2020 — mostra que mesmo no trabalho mais precarizado, a classe trabalhadora encontra formas de resistir.

    Por que a Juventude é a Mais Afetada

    A juventude brasileira entra no mercado de trabalho exatamente no período em que os direitos estão mais fragilizados. Para muitos jovens, o único “emprego” disponível é informal, por aplicativo ou com contratos intermitentes.

    Isso tem consequências concretas:

    — Sem carteira assinada, não há contribuição para o INSS. Aos 60 ou 65 anos, esses jovens não terão aposentadoria;
    — Sem estabilidade, não há como planejar a vida: alugar uma casa, ter filhos, fazer um curso superior ficam ainda mais distantes;
    — Sem sindicato forte, o trabalhador fica isolado diante do poder do capital.

    A precarização do trabalho é também uma precarização da vida. E é a juventude trabalhadora quem mais sofre.

    Direitos Trabalhistas Não São Privilégio — São Conquista

    Um dos argumentos mais utilizados pela direita para atacar direitos trabalhistas é o de que eles são “privilégios” que encarecem a produção e afastam investimentos. É uma mentira elaborada.

    Direitos trabalhistas não são privilégios concedidos por patrões bondosos. São conquistas arrancadas da burguesia através de décadas de luta organizada. Cada direito na CLT representa trabalhadores que foram às ruas, que pararam fábricas, que arriscaram o emprego e às vezes a vida para garantir condições dignas de existência.

    Quando se fala em “flexibilizar” direitos, fala-se em devolver ao capital o que a classe trabalhadora conquistou. É uma disputa de classes disfarçada de debate técnico.

    O Caminho é a Organização

    A defesa dos direitos trabalhistas não se faz apenas no Congresso. Ela se faz nas fábricas, nas plataformas, nas ruas.

    Os movimentos de entregadores por aplicativo, as greves dos professores, a luta dos servidores públicos — tudo isso faz parte do mesmo campo de batalha. A classe trabalhadora só avança quando está organizada.

    Para a juventude engajada, o desafio é duplo: compreender que a sua precarização individual não é falta de esforço, mas resultado de um sistema que foi construído para explorar — e se organizar coletivamente para transformá-lo.

    Conclusão

    Os direitos trabalhistas são o resultado concreto de décadas de luta da classe trabalhadora brasileira. Atacá-los é atacar a dignidade de milhões de famílias. Defendê-los é defender a possibilidade de uma vida com menos exploração e mais justiça.

    A juventude que hoje enfrenta a precarização e a uberização precisa compreender sua posição na estrutura de classes — e agir a partir dela. Não há saída individual para um problema coletivo.

    A CLT não é perfeita. Mas o que querem em seu lugar é muito pior.

    Organizemo-nos. ✊

    Referências

    1. BRASIL. Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Decreto-Lei nº 5.452/1943.
    2. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 2018-2024.
    3. ANTUNES, Ricardo. “O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital”. Boitempo, 2018.
    4. ABÍLIO, Ludmila Costhek. “Uberização: a era do trabalhador just-in-time”. Estudos Avançados, USP, 2020.
    5. Agência Brasil. “Greve dos entregadores por aplicativo paralisa cidades em julho de 2020”.

  • Crises Econômicas do Capitalismo: Por que o Sistema Entra em Colapso

    Crises Econômicas do Capitalismo: Por que o Sistema Entra em Colapso

    Por que o capitalismo entra em crise? Por que a cada dez ou vinte anos assistimos ao colapso da economia, milhões perdem seus empregos, famílias são despejadas, e os ricos ficam ainda mais ricos? A resposta não está em incompetência de gestores ou “bolhas especulativas” temporárias. A resposta está nas próprias entranhas do sistema capitalista.

    Marx entendeu algo que economistas liberais nunca admitirão: as crises econômicas não são acidentes do capitalismo. Elas são NECESSIDADES ESTRUTURAIS do sistema. São como terremotos causados pelo próprio movimento das placas tectônicas – não podem ser evitadas enquanto a tectônica permanecer a mesma.

    Estamos em 2026, e a economia global segue num patamar de crescimento baixo e instável. Bancos centrais continuam mantendo juros altos. A dívida global alcançou níveis astronômicos. As contradições que explodiram em 2008 nunca foram resolvidas – apenas adiadas. E as que explodiram em 2020 com a pandemia estão germinando novas crises. Os economistas burgueses pretendem gerenciar essas contradições eternamente, mas Marx já provou matematicamente que isso é impossível.

    Neste artigo, você aprenderá POR QUE AS CRISES SÃO INEVITÁVEIS NO CAPITALISMO, o que Marx descobriu sobre os mecanismos internos que as causam, e por que nenhuma reforma conseguirá “consertar” um sistema que é tão quebrado quanto um vaso rachado – quanto mais água colocamos, mais vaza.

    O que é uma crise econômica para Marx

    Uma crise econômica capitalista não é um “momento difícil” que passa. É um momento em que as contradições internas do sistema capitalista explodem à superfície, quando as máscaras caem e a realidade brutal se expõe.

    Para a economia burguesa, uma crise é um “acidente de percurso” – algo que sobreveio por falta de planejamento, regulação insuficiente ou decisões erradas de políticos.

    Mas Marx enxergou diferente. Para Marx, as crises são EXPRESSÕES VISÍVEIS DE CONTRADIÇÕES QUE EXISTEM O TEMPO TODO no capitalismo, mas que geralmente ficam escondidas pelo véu das mercadorias e do dinheiro.

    A contradição fundamental é esta: OS CAPITALISTAS PRODUZEM PARA LUCRO, NÃO PARA NECESSIDADE HUMANA. Eles querem extrair a máxima quantidade possível de valor do trabalho dos operários, pagando o mínimo possível em salários. Resultado? Produzem quantidades enormes de mercadorias, mas os trabalhadores (que são a maioria da população) não têm renda suficiente para comprar o que foi produzido.

    É como um restaurante que serve 1.000 pratos por dia mas só consegue vender 500 porque seus clientes não têm dinheiro. O patrão então despede metade dos cozinheiros para “economizar”, mas aí tem ainda menos clientes com dinheiro para comer. A crise aprofunda.

    Segundo a teoria marxista-leninista, as crises econômicas de superprodução são INEVITÁVEIS E CÍCLICAS no regime capitalista. Elas não são falhas – são características estruturais.

    Superprodução: o mecanismo central da crise capitalista

    O mecanismo central de uma crise capitalista é a SUPERPRODUÇÃO. Isso significa que há mais mercadorias produzidas do que podem ser vendidas com lucro.

    Marx descobriu que o verdadeiro problema é a SUPERACUMULAÇÃO DE CAPITAL. Vejamos como funciona:

    1. O capitalista acumula capital. Obtém lucros e reinveste-os na produção.

    2. Isso aumenta a composição técnica do capital. Ele compra máquinas (capital constante) e contrata menos trabalhadores (capital variável) para produzir mais.

    3. Isso aumenta a produção exponencialmente. Com mais máquinas, produz-se mais mercadorias com menos trabalhadores.

    4. Mas os salários dos trabalhadores não crescem na mesma proporção. De fato, como há menos empregos disponíveis, os salários caem.

    5. Resultado: Uma montanha de mercadorias que ninguém pode comprar, porque os que poderiam comprá-las (os trabalhadores) tiveram seus salários reduzidos.

    Isso é a crise de superprodução: muito capital acumulado buscando lucro, mas insuficiente poder de compra para absorver toda a produção.

    A maioria dos economistas burgueses trata a superprodução como um problema de “falta de demanda” – e sua solução é ridícula: “Vamos aumentar o crédito!” Mais crédito significa mais dívida. Os trabalhadores endividam-se para comprar o que não podem pagar. Por um tempo, isso mascara a crise real. Mas eventualmente, quando os devedores não conseguem pagar, a bolha estoura.

    Isso é exatamente o que aconteceu em 2008: crédito hipotecário descontrolado para pessoas que não tinham condições de pagar, criando a ilusão de “demanda” que permitiu aos bancos e imobiliárias lucrarem enormemente. Mas era um castelo de areia.

    A lei da queda tendencial da taxa de lucro

    Existe uma lei econômica no capitalismo que Marx descobriu e que é tão importante quanto a gravidade na física: a TENDÊNCIA À QUEDA DA TAXA DE LUCRO.

    A taxa de lucro é calculada como: Lucro / Capital Investido

    Quanto maior o capital investido em relação ao lucro obtido, menor a taxa de lucro.

    No capitalismo, cada capitalista está em concorrência com todos os outros. Para ganhar mercado, ele precisa INVESTIR CADA VEZ MAIS EM MÁQUINAS para produzir mais barato que seus rivais.

    Mas aqui está o problema central: MÁQUINAS NÃO CRIAM VALOR. APENAS TRABALHO HUMANO CRIA VALOR. O trabalho humano é a única fonte de lucro (mais-valia).

    Portanto, quando um capitalista investe cada vez mais em máquinas e contrata cada vez menos trabalhadores, ele reduz a fonte de lucro (o trabalho humano) enquanto aumenta seu investimento de capital. Resultado: a taxa de lucro cai.

    Todos os capitalistas fazem isso simultaneamente, então a taxa de lucro cai para toda a classe capitalista. Com lucros menores, eles investem menos, contratam menos trabalhadores, e a economia contrai. Crise.

    O próprio sucesso dos capitalistas em mecanizar cria as condições para o fracasso do sistema. É uma contradição dialética perfeita.

    2008 e 2020: como o capitalismo expôs suas contradições

    A teoria não é abstrata. Vejamos como essas leis funcionam na vida real.

    A Crise de 2008: Superprodução de Casas e Capital Fictício

    Em meados dos anos 2000, o capital estava superacumulado. Os bancos tinham bilhões em dinheiro buscando lucro, mas a produção real não crescia no mesmo ritmo. A taxa de lucro estava caindo.

    A solução capitalista foi criar “capital fictício” – valores que não representam produção real. O setor imobiliário foi escolhido. Bancos emprestaram dinheiro para pessoas pobres comprarem casas, sabendo que não conseguiriam pagar. Isso criaria uma ilusão de “demanda” por casas.

    Mas o que era realmente produzido? Casas. Muito mais casas do que as pessoas podiam pagar. Superprodução disfarçada de “boom imobiliário”.

    Em 2008, quando os devedores começaram a não pagar, a bolha estourou. O capital fictício desapareceu. Os bancos foram “salvos” pelo Estado com dinheiro dos contribuintes. Os trabalhadores perderam suas casas. Foi uma crise de superprodução / superacumulação clássica, exatamente como Marx previu.

    A Crise de 2020: Pandemia Expõe Contradições Existentes

    A pandemia do COVID-19 não CAUSOU a crise econômica. Ela apenas REVELOU que o capitalismo estava já em crise profunda.

    De 2008 a 2020, os bancos centrais “resolveram” a crise não resolvendo nada. Apenas imprimiram trilhões em dinheiro e mantiveram juros próximos de zero. Isso criou a maior bolha especulativa da história.

    Quando a pandemia fechou as fábricas em 2020, ficou claro que toda aquela riqueza era fictícia. Os bancos foram “salvos”, enquanto pequenas empresas quebraram e trabalhadores foram despedidos.

    Estamos em 2026, e a economia global segue num patamar de crescimento muito baixo (2,7% segundo o Banco Mundial), com inflação em alguns países, recessão iminente em outros, e dívida global em níveis recorde. As mesmas contradições de 2008 continuam sem resolução.

    Por que o capitalismo não pode ser reformado

    Aqui está a conclusão que os reformistas não querem ouvir: AS CRISES NÃO PODEM SER ELIMINADAS ENQUANTO O CAPITALISMO EXISTIR.

    Por quê? Porque não são “problemas” que possam ser “consertados”. São NECESSIDADES ESTRUTURAIS DO PRÓPRIO SISTEMA.

    Os reformistas dizem: “Vamos regular melhor os bancos!”, “Vamos aumentar os salários!”, “Vamos investir em educação!” Essas medidas podem melhorar marginalmente a vida das pessoas, mas não eliminam a raiz.

    Porque a raiz é esta: O CAPITALISMO PRODUZ PARA LUCRO, NÃO PARA NECESSIDADE. Enquanto isso for verdade, haverá superprodução.

    A única solução permanente é eliminar a própria produção para lucro. Isso significa SOCIALISMO: uma economia planejada, onde a produção é controlada democraticamente pelos trabalhadores e produz exatamente o que a sociedade precisa.

    Sem socialismo, as crises continuarão. Cada vez mais profundas, cada vez mais destrutivas.

    A crise é sistêmica: o que fazer agora

    As crises econômicas não são acidentes. São SINTOMAS DE UMA DOENÇA TERMINAL: o capitalismo.

    Marx descortinou os mecanismos pelos quais o capitalismo gera crises:
    – A superprodução causada pela redução do poder de compra dos trabalhadores
    – A superacumulação de capital que não consegue geção
    – A intensificação dessas contradições ao longo do tempo

    Toda crise desde Marx confirmou sua análise. 2008? Superprodução + superacumulação. 2020? As mesmas contradições, reveladas pela pandemia.

    Os reformistas insistem que podemos “consertar” o capitalismo. Mas é como insistir que podemos “consertar” um coração parado apenas massageando o peito. Eventualmente, se o coração não reinicia, o corpo morre.

    O capitalismo está num ciclo de crises cada vez mais profundas. A única saída histórica é o socialismo. Uma economia planejada democraticamente, produzindo para necessidade humana, não para lucro de uma minoria.
    Não é utopia. É análise científica das tendências objetivas do capitalismo. E a história, a cada crise que passa, confirma cada palavra que Marx escribiu há quase 150 anos.

    A questão não é se o capitalismo vai entrar em crise. Já entrou, e nunca saiu. A questão é: quando os trabalhadores compreenderão que a única solução é construir uma nova ordem econômica?

    Para ir além: entenda como a luta de classes opera por dentro do capitalismo, como a economia política marxista explica a extração de valor, e como o imperialismo globaliza essas contradições. Tudo apoiado no método do materialismo histórico.

    Referências e leituras complementares

    1. GRABOIS, M. “Crises do capitalismo financeirizado: uma análise Marxista”. Fundação Maurício Grabois, 2025.

    2. Centro de Estudos Victor Meyer. “Para uma breve análise da crise capitalista de longa duração (1973-2025)”.

    3. HARMAN, C. “A Taxa de Lucro e o Mundo Atual”. Marxists Internet Archive, 2007.

    4. ORGANIZAÇÃO COência à queda da taxa de lucro”. Marxismo.org.br.

    5. INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL. “O mundo em depressão econômica: uma análise marxista da crise”.