Introdução
Todo 1° de maio, os mesmos rituais se repetem: políticos fazem discursos sobre “valorização do trabalhador”, centrais sindicais organizam atos nas praças, e a maioria dos trabalhadores simplesmente aproveita o feriado. O sentido político da data vai sendo esvaziado, a história vai sendo esquecida, e a comemoração substitui a luta.
Mas o Dia Internacional dos Trabalhadores não foi criado para ser comemorado com churrasco. Foi criado para lembrar os mártires de Chicago, para renovar o compromisso com a luta de classes e para avaliar: o que conquistamos, o que perdemos e o que ainda falta.
Neste artigo, vamos fazer esse balanço honesto: como está a classe trabalhadora brasileira em 2026 e quais são as lutas que não acabaram.
O que Foi Conquistado
Seria desonesto ignorar as conquistas. A CLT de 1943 garantiu direitos que trabalhadores de outras gerações morreram para conquistar. A Constituição de 1988 reconheceu direitos sociais fundamentais — saúde, educação, previdência, moradia. O SUS permitiu que dezenas de milhões de brasileiros tenham acesso a saúde pública gratuita. O salário mínimo, quando valorizado, reduziu a pobreza de forma significativa.
No plano sindical, o Brasil construiu uma das maiores centrais sindicais do mundo — a CUT — e uma tradição de organização que atravessou a ditadura e produziu conquistas reais nas negociações coletivas.
Essas conquistas não caíram do céu. Foram arrancadas com organização, greve, pressão e, em muitos casos, sangue.
O que Foi Perdido
A Reforma Trabalhista de 2017 representou o maior retrocesso em direitos trabalhistas da história recente do Brasil. Trabalho intermitente, terceirização irrestrita, prevalência do negociado sobre o legislado — tudo isso enfraqueceu a proteção ao trabalhador e fragmentou a capacidade de organização sindical.
A uberização explodiu: milhões de trabalhadores classificados como “empreendedores” trabalham mais que um assalariado formal e ganham menos, sem qualquer proteção. O trabalho informal cresceu. O desemprego estrutural persiste mesmo em períodos de crescimento econômico.
A pandemia de 2020 revelou a fragilidade de um sistema onde trabalhadores informais — a maioria — não têm renda garantida quando o trabalho para.
O que Ainda Falta Conquistar
Em 2026, as principais lutas da classe trabalhadora brasileira incluem a revogação das partes mais prejudiciais da Reforma Trabalhista, a regulamentação do trabalho por aplicativo com garantia de direitos mínimos, a valorização do salário mínimo acima da inflação, a ampliação da cobertura previdenciária para trabalhadores informais, o fim da terceirização predatória e o fortalecimento da organização sindical.
São pautas que não entram em pauta na televisão. Que não aparecem nos discursos de 1° de maio dos políticos que votaram contra elas. Mas que determinam as condições concretas de vida de dezenas de milhões de brasileiros.
A Importância da Organização
Nenhuma das conquistas que hoje existem foi obtida individualmente. Nenhum trabalhador, sozinho, conseguiu reduzir a jornada de trabalho, conquistar férias ou garantir aposentadoria. Foram coletivos organizados que mudaram a história.
A fragmentação da classe trabalhadora — por meio da uberização, da terceirização, do trabalho remoto e da precarização — não é apenas econômica. É também política: trabalhadores isolados são mais difíceis de organizar, mais vulneráveis ao arbítrio patronal e mais propensos a aceitar condições que antes seriam recusadas coletivamente.
Reconstruir laços de solidariedade de classe é um dos desafios centrais do movimento trabalhista no século XXI.
Conclusão
O 1° de maio não é dia de nostalgia. É dia de balanço e de renovação do compromisso. Balanço honesto do que foi conquistado, do que foi perdido e do que ainda falta. Renovação do compromisso com a organização coletiva como único caminho real para mudanças.
Os mártires de Chicago morreram por uma jornada de 8 horas. Hoje, entregadores de app trabalham 14 horas sem garantia alguma. A história não é linear — às vezes regride. Mas enquanto houver exploração, haverá resistência.
Organize-se. A luta continua. ✊
Referências
1. DIEESE. “Balanço das negociações coletivas 2025”.
2. IBGE. PNAD Contínua — Mercado de Trabalho 2026.
3. IPEA. “Reforma Trabalhista: impactos e perspectivas”. 2024.
4. Agência Brasil. “Informalidade cresce no Brasil”. EBC, 2025.
5. ANTUNES, Ricardo. “O Privilégio da Servidão”. Boitempo, 2018.

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