Categoria: Educação

A educação pública é o terreno onde se decide se o Brasil terá uma juventude com horizonte ou uma geração resignada à precariedade. Nesta editoria cobrimos a educação básica, ensino médio, escolas técnicas, universidades públicas, pós-graduação, financiamento (FUNDEB, PNE), terceirização, militarização de escolas e os ataques à liberdade de cátedra.
Nossa abordagem parte do princípio de que educação não é mercadoria. Onde a iniciativa privada vê nicho de mercado, a esquerda vê direito social e ferramenta de emancipação. Defendemos universidade pública, gratuita, laica, plural e com permanência estudantil; defendemos a escola como espaço de pensamento crítico, não de adestramento.
Acompanhamos UNE, ANDES, sindicatos docentes, pareceres do MEC, lutas estudantis, cortes orçamentários e a produção pedagógica brasileira de Paulo Freire a Florestan Fernandes — sempre com olhar para a juventude que entra na universidade hoje.

  • Cotas nas universidades: o que os dados mostram de verdade

    Cotas nas universidades: o que os dados mostram de verdade

    Cotas nas universidades: o que os dados mostram de verdade

    Poucos temas produzem tanto mito quanto as cotas nas universidades. “Rebaixam o nível”, “são injustas com quem estudou”, “criam divisão racial”. Repetidos há mais de uma década, esses argumentos têm um problema inconveniente: os dados os desmentem, um a um. Depois de mais de dez anos de Lei de Cotas, o Brasil tem evidência farta sobre o que a política fez — e o que ela fez foi transformar quem entra na universidade pública.

    Este post reúne o que a pesquisa mostra sobre as cotas nas universidades: de onde vem a lei, o que mudou na revisão de 2023, quantos estudantes entraram por ela, se o “nível caiu” (não caiu) e por que a ação afirmativa é uma disputa de classe, não só de identidade.

    O que é a Lei de Cotas

    A Lei de Cotas (Lei 12.711), de 2012, determinou que as universidades e institutos federais reservassem metade de suas vagas para estudantes que cursaram o ensino médio integralmente em escola pública. Dentro dessa metade, há subcotas por renda e por raça — pretos, pardos e indígenas —, proporcionais à composição da população de cada estado. A lógica é direta: a universidade pública, financiada por toda a sociedade, estava ocupada majoritariamente por quem já vinha do topo. As cotas corrigem uma porta que, na prática, estava fechada.

    Em 2023, a lei foi revisada e aprimorada pela Lei 14.723. As principais mudanças: incluiu explicitamente estudantes quilombolas entre os beneficiários; reforçou a prioridade dos cotistas no acesso a auxílios estudantis (a permanência, não só o ingresso); e passou a garantir que o cotista concorra primeiro na ampla concorrência, disputando a vaga reservada apenas se não for classificado no geral — o que aumenta as chances de ingresso.

    Os números: quem entrou por causa das cotas

    Aqui os dados falam mais alto que qualquer opinião. O número de estudantes que ingressaram na rede federal por ações afirmativas saltou de 40.661 em 2012 para 108.616 em 2022 — quase o triplo em dez anos. A participação das vagas reservadas no total de ingressos subiu de 12,7% (2012) para 39,6% (2019). Traduzindo: centenas de milhares de jovens negros, pobres e indígenas passaram a ocupar salas de aula que, antes, praticamente não os viam.

    Isso mudou o rosto da universidade pública brasileira. Cursos historicamente elitizados — medicina, direito, engenharias — deixaram de ser feudos quase exclusivos das classes altas. Não é um detalhe estatístico: é uma das políticas de inclusão mais eficazes já implementadas no país.

    “Mas o nível não caiu?” — Não

    Esse é o mito mais repetido, e o mais fácil de desmontar com dados. Estudos acompanhando o desempenho em universidades como UFSC, UFMG e UFRJ mostram o mesmo padrão: os cotistas ingressam, em média, com nota ligeiramente menor no Enem — e essa diferença desaparece ao longo do curso. Ou seja, dada a mesma oportunidade, o estudante cotista rende tanto quanto o não cotista. A nota de entrada mede o ponto de partida desigual, não a capacidade.

    Isso faz sentido à luz de tudo o que sabemos: um jovem de escola pública que tira uma boa nota no Enem, apesar de estudar em condições muito piores, frequentemente tem mais determinação e capacidade do que o número bruto sugere. A cota não “rebaixa” — ela corrige uma medição enviesada por uma educação básica desigual.

    Cotas raciais e cotas sociais: por que as duas

    Há quem aceite a cota por renda mas rejeite a racial: “o problema é só classe”. O problema com esse argumento é que, no Brasil, raça e classe estão entrelaçadas, mas não são a mesma coisa. Um jovem negro e um jovem branco de mesma renda não enfrentam o mesmo mundo: enfrentam abordagem policial diferente, chance de emprego diferente, tratamento diferente. Ignorar o recorte racial é fingir que o racismo estrutural não existe. Por isso a política combina os dois recortes — e a inclusão dos quilombolas em 2023 aprofunda esse reconhecimento.

    Ingresso não basta: a luta pela permanência

    Entrar na universidade é metade da batalha. A outra é permanecer. De nada adianta a vaga se o estudante pobre não tem como pagar transporte, alimentação, material e moradia enquanto estuda em tempo integral. Por isso a revisão de 2023 reforçou a prioridade dos cotistas nos auxílios estudantis — e por isso a luta por assistência estudantil (bolsas, restaurante universitário, moradia estudantil) é inseparável da luta pelas cotas. Uma política de ingresso sem política de permanência produz evasão, não inclusão.

    Conclusão: cota é reparação e é futuro

    As cotas nas universidades são, ao mesmo tempo, reparação de uma dívida histórica e investimento no futuro do país. Os dados são inequívocos: mais gente entrou, o desempenho se equipara, e a universidade pública ficou mais parecida com o Brasil real. Os ataques à política não se sustentam nos números — se sustentam no incômodo de quem perdeu o monopólio de um espaço que a sociedade inteira paga.

    Comente se você entrou por cota ou conhece quem entrou — e o que mudou. Compartilhe com quem repete que “cota rebaixa o nível”. E organize-se: defender a universidade pública e as cotas é defender que o conhecimento pertença a quem sempre foi deixado de fora. Comece se organizando politicamente.

  • Educação Pública sob Ataque: O que Está em Jogo para a Juventude Brasileira

    Educação Pública sob Ataque: O que Está em Jogo para a Juventude Brasileira

    Introdução

    Em 2023, o governo federal cortou R$ 2,5 bilhões do orçamento das universidades e institutos federais. Em 2024, novos contingenciamentos atingiram hospitais universitários e programas de assistência estudantil. Em 2025, greves de docentes e servidores paralisaram dezenas de instituições. Este não é um acidente — é uma política deliberada de desmonte da educação pública brasileira.

    A educação pública, gratuita e de qualidade é uma das conquistas mais importantes da classe trabalhadora brasileira. E é exatamente por isso que ela está sob ataque permanente: porque educação pública universal ameaça a lógica de mercado que transforma conhecimento em mercadoria e acesso ao saber em privilégio de quem pode pagar.

    Neste artigo, vamos analisar o estado atual da educação pública no Brasil, os ataques que ela enfrenta e por que a sua defesa é uma pauta central para a juventude e para a classe trabalhadora.

    O Que Está em Jogo: Os Números da Educação Pública Brasileira

    O Brasil tem mais de 60 milhões de estudantes matriculados na rede pública de educação básica — da creche ao ensino médio. São escolas municipais, estaduais e federais que atendem principalmente filhos da classe trabalhadora, das periferias, das zonas rurais, dos povos indígenas e quilombolas.

    No ensino superior, as universidades federais e estaduais públicas representam cerca de 55% das matrículas. O Brasil tem 68 universidades federais distribuídas por todo o território nacional, resultado de um processo de expansão intenso nas décadas de 2000 e 2010. Essa expansão foi uma conquista histórica: pela primeira vez, filhos de trabalhadores do interior do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste tinham acesso a formação superior pública e de qualidade.

    Toda essa estrutura está ameaçada. Os cortes orçamentários sistêmicos comprometem a qualidade do ensino, o pagamento de bolsas de assistência estudantil e a manutenção da própria infraestrutura das instituições.

    A Lógica Por Trás dos Cortes: Mercantilização da Educação

    Para entender os ataques à educação pública, é preciso compreender que eles não são erros de gestão. São parte de um projeto político consciente: a mercantilização da educação.

    Quando o Estado corta recursos das universidades públicas, abre espaço para o crescimento do mercado privado de ensino superior. Quando precariza as escolas públicas, empurra as famílias que podem pagar para o ensino privado. Quando destrói a assistência estudantil, expulsa das universidades os estudantes de baixa renda que não conseguem se manter sem apoio financeiro.

    O setor educacional privado no Brasil movimenta dezenas de bilhões de reais por ano. Grupos como Cogna, Kroton, Ser Educacional e outros dominam o mercado de ensino superior privado. Para esse mercado crescer, é necessário que o setor público seja enfraquecido. Não é coincidência que os maiores apoiadores das reformas que cortam verbas da educação pública sejam justamente representantes do setor educacional privado no Congresso.

    A Luta Estudantil: Uma Tradição de Resistência

    Os estudantes brasileiros têm uma longa história de resistência. Nas décadas de 1960 e 1970, a União Nacional dos Estudantes (UNE) foi um dos principais focos de resistência à ditadura militar. Estudantes foram presos, torturados e mortos por defender democracia e educação pública.

    Mais recentemente, em 2016, estudantes secundaristas de todo o Brasil realizaram uma das mobilizações mais impressionantes da história recente: a ocupação de centenas de escolas contra a PEC do Teto de Gastos e a Reforma do Ensino Médio. Os estudantes, muitos com 14 e 15 anos, gerenciaram suas escolas ocupadas de forma autônoma — limpeza, alimentação, atividades pedagógicas — mostrando uma capacidade organizativa que envergonhou os políticos que queriam destruir sua educação.

    Em 2023 e 2024, greves de docentes nas universidades federais voltaram a pautar o debate sobre financiamento da educação pública. A luta continua, sob novas formas, mas com a mesma essência: a defesa do conhecimento como direito universal, não como mercadoria.

    O PROUNI, o FIES e a Armadilha da Privatização com Dinheiro Público

    Uma das estratégias mais sofisticadas de desmonte da educação pública é o financiamento de instituições privadas com recursos públicos. O PROUNI (Programa Universidade Para Todos) e o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) transferem bilhões do orçamento federal para as instituições privadas.

    A lógica apresentada é a da inclusão: estudantes pobres que não passam no vestibular das federais teriam acesso ao ensino superior via bolsas no privado. Mas o resultado real é diferente: as universidades privadas recebem recursos públicos sem os mesmos controles de qualidade e acesso das federais, e o Estado financia a ampliação do mercado privado em vez de expandir as vagas públicas.

    A alternativa seria óbvia: usar esses recursos para criar mais vagas nas universidades públicas e fortalecer a assistência estudantil. Mas isso contraria os interesses dos grupos privados que dominam o mercado educacional.

    Por que a Educação Pública Interessa à Classe Trabalhadora

    A educação pública universal é, historicamente, uma das principais bandeiras do movimento operário e socialista. E há razões objetivas para isso.

    Primeiro, a educação pública é a única que pode garantir acesso universal ao conhecimento independentemente da renda familiar. Quando a escola pública é boa, o filho do trabalhador tem as mesmas ferramentas intelectuais que o filho do empresário. Quando é precarizada, a desigualdade se reproduz de geração em geração.

    Segundo, a universidade pública é um espaço de produção de conhecimento crítico, pesquisa científica e formação profissional que não pode estar subordinada apenas ao lucro. A pesquisa básica, a produção de vacinas, a formação de médicos para o SUS, a preservação da memória cultural — tudo isso acontece nas universidades públicas e não seria viável no mercado privado.

    Terceiro, a luta pela educação é a luta por um projeto de país. Uma nação que investe em educação pública investe em soberania, em ciência, em desenvolvimento que beneficia o conjunto da população — não apenas os acionistas dos grupos educacionais privados.

    Conclusão

    A educação pública não está em crise por incompetência ou falta de recursos naturais. Está sob ataque deliberado porque representa uma alternativa à mercantilização do conhecimento — e porque uma população educada, crítica e organizada é uma ameaça ao status quo.

    Defender a educação pública é defender o futuro da juventude trabalhadora. É lutar por um país onde o acesso ao conhecimento não dependa do tamanho do salário dos pais.

    Às greves, às ocupações, às manifestações — a história mostra que os estudantes, quando se organizam, mudam os rumos do país. A luta pela educação pública é uma luta que vale a pena. ✊

    Referências

    1. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) — Educação 2022.
    2. MEC. Relatório de Gestão — Orçamento das Universidades Federais 2023-2025.
    3. ANDIFES. “Perfil socioeconômico dos estudantes das universidades federais”. 2022.
    4. Agência Brasil. “Cortes no orçamento das universidades federais: impactos e perspectivas”. EBC, 2024.
    5. UNE. “História do movimento estudantil brasileiro”. une.org.br.