Introdução
O Sistema Único de Saúde — o SUS — realiza por ano mais de 4 bilhões de procedimentos ambulatoriais, 1,1 bilhão de consultas médicas, 12 milhões de internações e 22 mil transplantes de órgãos. É o maior sistema de saúde universal do mundo em termos de população atendida. E é completamente gratuito para quem usa.
Para os 75% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS — trabalhadores, desempregados, pobres, a maioria do país — ele representa a diferença entre ter ou não ter acesso a tratamento médico. Não é perfeito. Sofre com falta de recursos, filas e precarização. Mas é deles.
E é exatamente por isso que está sob ataque. Porque cada real que sai do SUS para o setor privado representa lucro para planos de saúde, hospitais e laboratórios. Neste artigo, vamos entender como funciona o SUS, por que ele está em crise e quem lucra com seu desmonte.
O que É o SUS e Como Ele Funciona
O SUS foi criado pela Constituição de 1988 como resultado de décadas de luta do movimento sanitarista brasileiro. O princípio fundamental é simples e radical: saúde é direito de todos e dever do Estado, universal e gratuito.
Financiado pela União, estados e municípios, o SUS cobre desde consultas básicas e vacinação até cirurgias complexas, quimioterapia e transplantes. É responsável pelo Programa Nacional de Imunizações — referência mundial — e pela distribuição gratuita de medicamentos para doenças crônicas.
A pandemia de COVID-19 explicitou tanto a grandiosidade quanto as limitações do SUS: foi a estrutura do sistema público que vacinou mais de 500 milhões de doses em tempo recorde; mas foram as filas, as faltas e o subfinanciamento que causaram mortes evitáveis.
O Subfinanciamento como Política
O Brasil gasta com saúde pública cerca de 4% do PIB — bem abaixo dos países com sistemas universais consolidados. O Reino Unido gasta 8%, o Canadá 8,5%, a Alemanha 10%. A Constituição determina que a União aplique no mínimo 15% da receita corrente líquida no SUS, mas esse patamar sempre foi disputado politicamente.
A Emenda Constitucional 95 de 2016 — o “Teto de Gastos” — congelou os investimentos federais em saúde por 20 anos, desvinculando os gastos do crescimento da economia. Na prática, isso significou um corte real de bilhões de reais na saúde pública, em um período em que a demanda crescia.
Esse subfinanciamento não é descuido — é escolha política. E beneficia diretamente o setor privado de saúde, que cresce na mesma proporção em que o SUS definha.
Quem Lucra com o Desmonte
O mercado de planos de saúde privados movimenta mais de R$ 250 bilhões por ano no Brasil. Grupos como Hapvida, NotreDame Intermédica, Amil e outros consolidaram um oligopólio que controla o acesso à saúde para os 25% da população que pode pagar.
Esse setor tem forte representação no Congresso Nacional e financia campanhas eleitorais de forma sistemática. Não é por acaso que as reformas que prejudicam o SUS sempre encontram apoio parlamentar fácil.
A lógica é simples: quanto mais o SUS piora, mais as pessoas buscam planos privados. E quanto mais planos privados crescem, mais pressão política existe para continuar desinvestindo no público.
A Defesa do SUS é uma Luta de Classe
Quem tem plano de saúde privado raramente se preocupa com o SUS. Quem paga R$ 800, R$ 1.500 por mês em plano familiar não sente na pele o que significa esperar meses por uma consulta especializada ou não conseguir leito de UTI.
Mas os trabalhadores que perdem o emprego, os informais, os aposentados com baixa pensão, os jovens sem registro em carteira — para todos eles, o SUS é a única garantia de acesso à saúde. Atacar o SUS é atacar diretamente a classe trabalhadora.
Conclusão
O SUS é uma conquista civilizatória. Imperfeito, subfinanciado, sobrecarregado — mas real, universal e gratuito. Defende-lo não é nostalgia: é reconhecer que saúde não pode ser mercadoria.
A luta pela saúde pública é parte da luta maior por um país onde o acesso a direitos básicos não dependa do tamanho do salário. E essa luta começa com informação, organização e pressão política.
Saúde não é privilégio. É direito. ✊
Referências
1. Ministério da Saúde. Relatório de Gestão do SUS 2024.
2. IBGE. PNAD Saúde 2023.
3. ABRASCO. “O SUS que queremos: financiamento e universalidade”. 2024.
4. Agência Brasil. “SUS realiza 4 bilhões de procedimentos por ano”. EBC.
5. ANS. Dados do mercado de planos de saúde 2024. Agência Nacional de Saúde Suplementar.

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