Introdução
O Brasil tem um dos índices de concentração de terra mais altos do mundo. Cerca de 1% dos proprietários controla quase metade das terras agrícolas do país. Do outro lado, milhões de famílias rurais não têm acesso à terra para plantar, morar e viver com dignidade.
É nesse contexto de desigualdade extrema que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra — o MST — nasceu, em 1984, no interior do Rio Grande do Sul. Quarenta anos depois, é um dos maiores movimentos sociais do planeta, com presença em todos os estados brasileiros e uma história marcada por conquistas reais e repressão violenta.
Neste artigo, vamos contar a história do MST, entender o que é a reforma agrária e por que ela continua sendo uma necessidade urgente para o desenvolvimento justo do Brasil.
Como o Brasil se Tornou um País de Latifúndios
A concentração de terra no Brasil tem raízes na colonização portuguesa. Desde o século XVI, o modelo das sesmarias distribuiu enormes extensões de terra para poucos colonos, excluindo indígenas, africanos escravizados e a maioria da população. A Lei de Terras de 1850 consolidou esse modelo ao proibir a aquisição de terras por posse — só quem tinha dinheiro poderia comprar terra.
O resultado histórico é o que vemos hoje: um índice de Gini fundiário (que mede a concentração de terra) de 0,87 — próximo ao máximo de desigualdade possível. Enquanto fazendeiros acumulam milhões de hectares, frequentemente improdutivos ou usados para especulação, famílias inteiras não têm onde plantar.
O Nascimento do MST
O MST surgiu formalmente no Primeiro Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais Sem Terra, realizado em Cascavel (PR) em janeiro de 1984. Mas suas raízes estão nas ocupações de terra que aconteceram no final dos anos 1970, especialmente no Rio Grande do Sul, com apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) ligada à Igreja Católica progressista.
Desde o início, o MST adotou como método principal a ocupação de terras improdutivas — aquelas que não cumprem a função social determinada pela Constituição. A lógica é simples: a terra que não produz, que não gera emprego e que não sustenta famílias não tem razão de estar nas mãos de quem a mantém ociosa.
Conquistas em 40 Anos
Em quatro décadas de organização, o MST conquistou assentamento para mais de 450 mil famílias em todo o Brasil, totalizando aproximadamente 7,5 milhões de hectares. Isso representa milhares de comunidades rurais produzindo alimentos, principalmente por meio da agricultura familiar e agroecológica.
O movimento também construiu escolas nos assentamentos — mais de 1.800 escolas em todo o país — e formou dezenas de milhares de jovens do campo por meio de parcerias com universidades e institutos federais. A Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP), é um dos centros de formação política mais importantes da América Latina.
Reforma Agrária: O que É e Por que Importa
Reforma agrária é a redistribuição de terras improdutivas para famílias sem terra, acompanhada de infraestrutura, crédito rural e assistência técnica para que essas famílias possam produzir. Não se trata de tomar terra de quem produz — trata-se de desconcentrar o latifúndio improdutivo.
A Constituição de 1988 prevê explicitamente a desapropriação de terras que não cumprem sua função social. Mas essa previsão constitucional é aplicada de forma extremamente limitada, sob pressão constante da bancada ruralista no Congresso.
Os benefícios da reforma agrária vão além da justiça social. Estudos do IPEA mostram que a agricultura familiar — principal beneficiária da reforma agrária — produz mais de 70% dos alimentos consumidos na mesa dos brasileiros, com menor uso de agrotóxicos e maior diversidade de culturas.
A Repressão e os Conflitos no Campo
A luta pela terra no Brasil é violenta. Segundo a CPT, centenas de trabalhadores rurais foram assassinados em conflitos fundiários nas últimas décadas. Lideranças do MST sofrem ameaças, prisões e processos judiciais. Acampamentos são despejados com violência policial.
O Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando a Polícia Militar do Pará assassinou 19 trabalhadores sem terra, é o símbolo mais dramático dessa violência. Os responsáveis foram julgados décadas depois e a impunidade permanece como regra.
Conclusão
O MST é a prova viva de que a organização popular pode mudar a realidade. Em 40 anos, transformou a vida de meio milhão de famílias e manteve na agenda política uma pauta que o latifúndio e seus aliados gostariam de enterrar: a reforma agrária.
A questão agrária brasileira não está resolvida. Enquanto 1% dos proprietários controla metade da terra e famílias inteiras não têm onde plantar, o MST continuará ocupando, produzindo e resistindo.
Sem reforma agrária, não há soberania alimentar. Sem soberania alimentar, não há soberania nacional. ✊
Referências
1. MST. “Nossa história”. mst.org.br.
2. CPT. “Conflitos no Campo Brasil 2024”. Comissão Pastoral da Terra.
3. IPEA. “Agricultura familiar e segurança alimentar no Brasil”. 2023.
4. IBGE. Censo Agropecuário 2017 — Concentração Fundiária.
5. Agência Brasil. “MST completa 40 anos com presença em todos os estados”. EBC, 2024.

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